terça-feira, 6 de junho de 2017

Tocar

Em música usamos a palavra tocar com significados diversos. Dizemos que tocamos um instrumento ou que tocamos numa orquestra, por exemplo.
Mas tocar, em música, é sobretudo atingir alguém com ela, penetrar com os sons no mais profundo, no mais íntimo da sua alma. Na verdade, nem sabemos muito bem em que parte do eu estamos a atingir alguém quando lhe tocamos com música. Mas sabemos que estamos a atingir um centro vital qualquer.
Tocar em alguém com música não tem figurino, modelo ou hora. Pode acontecer da forma mais inesperada, com os meios mais sofisticados ou da forma mais singela. Acontece a este e a oeste. Podemos estar sozinhos, em frente da fonte da música, a ouvir solitariamente um disco ou acompanhados por milhares, integrados num qualquer ritual colectivo. Tocar por música não envolve qualquer contacto entre as dermes. É uma espécie de sintonia entre uns “chips” invisíveis que a espécie parece possuir.
Eu já fui tocado pela música de outros e já toquei outros com a minha música.
Sabemos quando tocamos em alguém com os nossos sons. É este o sortilégio, perfeitamente inexplicável, da música. É este o poder dos sons. Pode ser a Missa em Si menor de Bach. Mas pode também ser um jovem aluno a improvisar, numa pequeníssima e rudimentar flauta de bambu, uma melodia simples que nos entrou pelo coração dentro.
Também sabemos quando esse fenómeno não ocorre. Quando há resistência ao toque.
Ontem, quando terminou o Ritual Sonoro (cf. mais informação aqui), um dos acontecimentos que assinalou o lançamento da Bienal da Arte da Terra, ela própria uma emanação da candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia e vimos o sorriso e a expressão de felicidade dos participantes, músicos e ouvintes, neste Ritual, sabíamos que todos foram profundamente tocados por aquilo que ouviram. É um daqueles momentos em que sabemos que tocámos em algo que nos transcende como simples mortais.
Estarão profundamente equivocados aqueles que não se apercebem deste poder e cometerão um erro brutal aqueles que, apercebendo-se, escolhem não valorizar correctamente o sentimento que experimentaram.
Ontem, em Guimarães, mais uma vez a música provou que constitui o meio mais poderoso para construir elos entre as pessoas.
Cada vez me convenço mais, de resto, que a Música foi inventada pela espécie humana como forma de a preservar e salvá-la do perigo de extinção...

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Os auxiliares


Se dúvidas houvesse sobre o que se está a passar na Terra hoje, elas ficariam dissipadas com esta historieta que vos vou contar. Foi-me transmitida por uma amiga que fez uma alteração no seu percurso de vida e se dedica agora à agricultura biológica.
A nova via resultou da decisão de recuperar uma quinta de família, há muito utilizada apenas como local de recreio.
Durante o tempo em que esteve inactivo, o solo da quinta secou e a fauna tradicional abandonou o local. Algum tempo depois de reiniciada a actividade agrícola, dos solos voltarem a estar ocupados, da flora tradicional e das novas espécies cultivadas os terem repovoado e da fauna (sobretudo os "auxiliares", as espécies que ajudam a fazer a "manutenção", cujos micro sistemas ecológicos voltaram a estar activos) ter regressado, os fins de tarde, outrora silenciosos em resultado da inactividade agrícola e da aridez assim gerada, passaram a ser verdadeiras sinfonias de sinais sonoros da multidão de espécies que voltou, insectos, aves e outros.
A transição do silêncio para a nova paisagem sonora deu-se sem que os proprietários se tivessem dado conta da lenta instalação desse silêncio e da aridez que ele representava. Mas a vida regressada foi logo ouvida.
Notável é a sensiblidade aqui revelada pelo reconhecimento da nova paisagem sonora e das mensagens que ela revela.
Por tudo isto, ajudar a ganhar ou a recuperar esta sensibilidade é uma missão que me continua a parecer vital. Por outro lado, prestar atenção aos sons e aos silêncios da paisagem sonora é hoje mais urgente que nunca. Saber interpretar o que eles querem revelar pode significar a diferença entre a continuação ou o fim da espécie.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Ritual Sonoro - Guimarães, Cidade Verde Europeia

Quando falamos de território, estamos, sobretudo, a pensar num conjunto de pistas de natureza visual que contribuem para dar substância ao conceito. Elementos que mapeiam a realidade física e nos ajudam a lidar com toda essa complexidade. Pode ser um elemento natural ou feito pelo homem. Uma grande montanha, por exemplo. ou um objecto, um marco, um edifício, uma ponte, que une as duas margens de um rio. Um rio, pode ser, ele próprio, definido como uma linha sinuosa que cava uma garganta profunda num acidente orológico. Pode ser o perfil linear de uma árvore ou a mancha, cromaticamente dinâmica de uma floresta. Pode ser a linha recta do horizonte distante que separa os azuis do céu e do mar ou a linha quebrada dos edifícios de uma cidade, interrompida pela curva parabólica de uma ponte.

Outras culturas usam outros elementos, para esse efeito. cheiros ou sons, por exemplo. O efeito subliminar dos cheiros pode ajudar, em certas culturas, o viajante a orientar-se em território desconhecido. O antropólogo Edmund Carpenter descreve como os Inuit desenham em peles, mapas baseados na escuta do mar a atingir as rochas da costa. A partir desses sons surge o mapa com surpreendente e preciso detalhe. Na prática nenhum dos sentidos tem total primazia, embora haja diferenças culturais profundas e constragimentos naturais no peso relativo que eles têm na percepção do ambiente envolvente e na criação da noção de território.

Passará muitas vezes despercebido o peso da escuta na percepção que temos, aqui no Ocidente, desse ambiente envolvente e no seu efeito no mapeamento do território. Estamos de tal maneira habituados a olhar o território e de tal forma condicionados pela realidade de mapas, textos, ecrãs, desenhos, fotografias e tantos outros elementos de natureza visual para o representar, que poderemos não nos dar conta da importância que o som tem na construção deste conceito. Mas ela é inequívoca.

O som fornece-nos pistas fulcrais sobre o ambiente circundante. E funciona na ausência da visão. Os sons podem constituir marcos e podem-nos dar indicações sobre distâncias, sobre a natureza dos materiais, as deslocações e o estado dos elementos móveis da paisagem. O que nos permite, por exemplo, juntar outros factores, não tangíveis, a essa noção de território. O vento não se vê, mas é possível definir um território como ventoso a partir do efeito sonoro do seu regime de ventos. O som pode ser uma utensílio precioso para lidar com elementos intangíveis ou efémeros dessa paisagem.

O sino é simultaneamente um marco, um símbolo e uma ferramenta fulcral desse processo. O sino marca um território. O seu perfil sonoro foi outrora o elemento que delimitava a fronteira da paróquia. O seu tamanho e a sua potência sonora ajustavam-se a essa função. Simultaneamente, o sino leva consigo, através do território que o seu perfil sonoro cobre, a sua mensagem e constitui a presença simbólica de quem a determina. Uma espécie de tele-bandeira.

Linhas, manchas cromáticas, formas geométricas, mapas, fotografias, itinerários e relatos de viagem, são representações visuais de realidades físicas que nos ajudam a construir mentalmente e a orientarmo-nos num território.

Não é, pois, por acaso que o território e o sino se encontram associados neste Ritual Sonoro. O centro do território deste ritual será o Largo da Oliveira, em Guimarães. Os sinos da sua igreja serão o fulcro sonoro desta intervenção. A par dos sinos da Oliveira outros sinos, de vários tamanhos e qualidades, das igrejas do centro e das vilas, os sinos de mão e pequenos sinos individuais, fixos e móveis, dos grupos participantes neste ritual, far-se-ão ouvir. E enquanto se propaga esse som simbólico e sagrado, proveniente de vários pontos do território concelhio, no Largo, um coro fará ouvir um canto, uma oração Navajo, que nos fala justamente de território, das direcções e das extensões que esse território contém.

Um Ritual Sonoro inserido num conjunto de actividades denominado Greenweek, inciativa que faz parte da candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia, de onde emana a Bienal da Arte da Terra que este Ritual, celebração do Território e do Sino, pretende simbolizar.

O Ritual Sonoro vai ter lugar no dia 4 de junho de 2017, pelas 12:45h.