terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os dois relojoeiros


Havia em tempos longínquos, na cidade de La Chaux-de-Fonds, dois relojoeiros muito apreciados pela especial qualidade dos relógios que produziam. Havia uma certa disputa até entre eles. 
Não faltavam artífices distintos nesta cidade, que a pouco e pouco começou a tornar-se muito conhecida por isso. Aqui se fabricavam os melhores e mais precisos movimentos, as mais robustas e mais sólidas caixas, os mais belamente decorados mostradores. Os relojoeiros de La Chaux-de-Fonds orgulhavam-se da excelência dos seus conceitos, da quase sobre-humana exactidão dos seus métodos de trabalho, do requinte extremo dos seus preciosos acabamentos, mas era no rigor das medições que os seus relógios proporcionavam que colhiam um sentimento especial. Um ano era um ano, um mês era um mês, um dia tinha vinte e quatro rigorosas horas, cada hora tinha sessenta precisos minutos, cada minuto era medido em sessenta completos segundos e cada segundo era um instante exacto, cuja absoluta duração era, não só, certa como mais nenhuma outra, mas, sobretudo, imutável. Um segundo era um segundo num relógio saído das mãos de um destes relojoeiros, e continuaria a sê-lo muitos anos depois, apesar do incessante movimento de todo aquele mecanismo. Um segundo era uma categoria imutável, preciosa, segura. O Tempo parecia, graças a estes mecanismos invulgares, uma categoria absoluta, inalterável, implacável no seu inexorável progresso, mas dócil e estranhamente confortável na precisão com que os seus instantes fundadores poderiam ser assim medidos.
Entre os muitos relojoeiros capazes de fabricar tão magníficas máquinas, estes dois  eram reconhecidamente os melhores e especialmente apreciados porque a precisão dos seus mecanismos e a extrema beleza dos seus produtos excediam as de todos os outros. 
Um dia um estranho fenómeno atingiu estas duas manufacturas. Subitamente os relógios que estavam prontos a serem expedidos para os clientes, descontrolaram-se. Uma hora podia durar um segundo, um segundo prolongava-se por dias. Mais estranho, a hora recuava, acelerava, oscilava, por vezes parava, estranhamente. Um instante parecia suspender-se, por vezes, não se conseguindo adivinhar qualquer movimento. O Tempo tinha passado a controlar os relógios.
Os relojoeiros observavam, inspecionavam, testavam. Não havia dúvida: o Tempo controlava os instrumentos que o tentavam medir. Nunca foi possível perceber por que razão o Tempo decidiu assim tomar conta dos mecanismos dos relógios e, sobretudo dos que tinham sido fabricados por este dois relojoeiros, em particular. Porquê estes dois? Sabe-se que na ânsia de salvar as suas manufacturas eles procuraram afanosamente explicações, elaboraram teorias, procuraram retomar o controlo. Sabe-se que acabaram por desistir. Sabe-se também que decidiram, no final, abraçar as possibilidades que o Tempo lhes estava assim a proporcionar. 
Sabendo que eram os melhores relojoeiros de La Chaux-de-Fonds, tendo ficado a conhecer, como mais ninguém, o poder que o Tempo tem, decidiram render-se-lhe. Esse Tempo, que eles teimosamente procuraram medir com a maior precisão possível, era afinal uma entidade com poder próprio, que não se deixava subjugar nem conter num simples mecanismo, por mais preciso e belo que pudesse ser, que ditava, ele sim, as suas próprias leis. O Tempo não se deixa medir. 
Os dois relojoeiros decidiram então fechar as suas manufacturas, mas antes fabricaram um exemplar único deste relógio que mostrava o tempo que o Tempo dava e oferecê-lo ao outro. Cada um traz agora no pulso o relógio que o outro lhe ofereceu e vive a vida ao ritmo que o Tempo dita. Um tempo sem a falsa e impraticável precisão que os relógios que fabricaram toda a vida lhes proporcionava.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A Marina




As manifestações de apreço que me têm sido transmitidas a propósito desta ópera TMIE, standing on the threshold of the outside world são invariavelmente do tipo "parabéns, muito bom [pausa dramática] e a cantora! Que fantástica, como é que ela conseguiu meter aquela música toda na cabeça, e que força é preciso ter para estar uma hora, assim, sozinha em palco..."
Pois bem, estas apreciações sobre a Marina pecam por um motivo: ficam muito aquém dos elogios que ela merece.
Eu sei porque acompanhei e orientei, no contexto do papel que me cabia, o trabalho dela e, digo-vos, não consigo encontrar palavras que traduzam exactamente o elogio que gostava de lhe fazer e que ela merece.
Eu sei porque passei com ela horas e horas de ensaio, partilhei pausas, fui verificando momento a momento a evolução e os resultados do nosso processo de trabalho. A obra foi nascendo, foi ganhando vida, porque a Marina lhe deu vida!
Sei-o, digo-o categoricamente, como mais ninguém.
Claro que se poderia falar do inexcedível talento, da imensa frescura e luminosidade que irradia a sua presença, da incrível capacidade vocal, da surpreendente versatilidade, da exigência e meticulosidade com que encarou este trabalho, do imenso "profissionalismo", da inteligência, da vivacidade, enfim. Tudo isso seria e é verdade. Mas citar apenas estes factores peca por defeito e levar-me-ia a cometer uma tremenda injustiça. A Marina é muito mais do que isto que referi. É tudo isto, sim, e mais tudo aquilo que faz com que tudo isto, quando comparado com tudo aquilo, não passe de coisa simplesmente normal.
Acreditem, eu sei. E repito-o categoricamente.

TMIE, standing on the threshold of the outside world (Texto da folha de sala)




No limiar do mundo exterior

Não, não se trata de uma gralha. TMIE é o acrónimo de Transmembrane Inner Ear (transporte trans-membranário do ouvido interno). É um gene, um dos elementos inicialmente activos na formação do ouvido interno, que está presente na cóclea e faz parte do complexo processo de transdução electromecânica do som para o nervo auditivo.
O mau funcionamento deste gene é causa de surdez. O seu funcionamento, em condições normais, medeia a passagem entre o mundo sonoro exterior — o das variações da pressão sonora do ar que nos chega ao ouvido interno e o nervo auditivo — até a informação, finalmente, chegar ao cérebro e ser por ele processada.
TMIE é título escolhido para esta obra como um símbolo da ligação do nosso mundo exterior ao mundo interior.
Em TMIE duas deusas, de mitologias diferentes, têm uma conversa improvável sobre os seus universos pessoais. Meretseger, aquela que ama o silêncio, desvenda-nos o que ouve por detrás desse silêncio. Selene, aquela que percorre os céus no seu carro de prata puxado por cavalos, adivinha os ritmos dos astros que vai descobrindo nestas suas deambulações. Um Corifeu ouve o que as duas deusas dizem, procura interpretar a essência das suas palavras e faz-nos a sua síntese.
Os três representam personagens reais.
Meretseger é Beverly Biderman, a canadiana que aos 46 anos, depois de uma surdez profunda desde os 12, decidiu submeter-se a uma operação de colocação de implantes cocleares. Recuperou a audição e teve de reaprender a ouvir. Selene é Henrietta Leavitt, a astrónoma americana. Descobriu a forma de fazer esta coisa quase inimaginável: medir o universo. Henrietta era surda, mas, através da fotometria, parecia ouvir o que os astros lhe diziam. Os seus ritmos, as suas palavras. O Corifeu é Empédocles, o filósofo pré-socrático que procurava as categorias essenciais do Universo e que foi o autor da primeira teoria sobre a natureza do ouvido e da audição. O ouvido: um sino, um ramo carnudo.
Relacionamo-nos com o ambiente que nos rodeia. Perante os sinais e efeitos que dele emanam e a nossa capacidade de os interpretar, o que resta? Consciência? Livre arbítrio? Alma?
Francis Crick sugere que uma parte do cérebro se ocupa a planear acções futuras. Temos consciência das decisões que tomamos em resultado desse planeamento, não do planeamento em si.
Henrietta Leavitt ouvia ou não realmente as estrelas? "Ouvimos com o cérebro" diz Biderman. O implante coclear produziu um "truque da mente" que lhe permitiu voltar a ouvir. "Não ouço como vós" acrescenta Biderman. Quem sabe o que ouve, de facto, Beverly Biderman? Como poderá saber ela o que cada um de nós ouve?
(O libreto desta opera está disponível em http://carlosalbertoaugusto.org)

Agradecimentos:
Um agradecimento, em primeiro lugar, a Beverly Biderman e a George Johnson pela forma generosa como acolheram este projecto. O libreto de TMIE baseou-se sobretudo em dois livros destes dois autores. De Biderman, Wired for Sound: a journey into hearing (1998), recentemente revisto e disponível em formato ebook. De Johnson, Miss Leavitt's Stars: the untold story of the woman that discovered how to measure the Universe (2005). As fontes utilizadas para o libreto completam-se com versões dos Fragmentos de Empédocles, coligidos a partir de traduções diversas, e num fragmento do soneto Evolução de Antero de Quental.
A música de TMIE foi desenvolvida e produzida a partir da ideia da sonificação de curvas de roleta e espirais. Este trabalho foi totalmente realizado com o Kyma, o gerador e processador digital da Symbolic Sound, a quem também ficam aqui expressos os meus agradecimentos.
Ficam também agradecimentos institucionais. À Miso Music Portugal e à Widex em primeiro lugar, por terem contribuído de forma definitiva para tornar TMIE uma realidade. Agradecimentos especiais também à Avantools e ao Teatro da Rainha, pelo apoio imprescindível que deram a este projecto.
Por detrás das instituições estão os indivíduos. Agradecimentos sentidos a Miguel Azguime, Tiago Nunes, Paulo Jorge Ferreira, Fernando Mora Ramos, Ana Pereira, Filipe Gill Pedro, João Pedro Leão, Jorge Simões da Hora, Miguel Lourtie e Margarida Vargas.
E como os últimos são os primeiros, fica por fim um destaque especial e um agradecimento infinito a Marina Pacheco. O entusiasmo e o superior talento que colocou ao serviço deste desafio e a energia que lhe dedicou seriam suficientes para me deixar em eterno défice de gratidão. Acresce que, como se tudo isto fosse pouco, é ela que dá a vida que faltava a esta obra. É o seu rosto, mas também a sua alma.