quinta-feira, 26 de maio de 2016

O Manel

"Acredito firmemente que sem especulação não existe observação de qualidade e original", terá dito Darwin.
As expressões faciais de bebés e crianças têm sido objecto de análise por numerosos cientistas. Darwin é, ele próprio, uma figura de referência no domínio da análise das expressões faciais em geral, e este tema, em particular, o da expressão facial das crianças, não lhe escapou à atenção.
Tudo isto vem isto a propósito de uma situação que aconteceu ontem comigo.
Eu conto.
Estava numa esplanada com uma amiga. Na mesa ao lado sentava-se uma jovem mãe com um bebé e um casal que imaginei que fossem os avós do bebé.
O bebé estava virado para mim, mas entretido na brincadeira com a mãe e só a ela parecia prestar atenção. De repente os nossos olhares cruzaram-se. A expressão do bebé indicava claramente uma reacção que me deixou especialmente intrigado. Passados escassos segundos, o bebé voltou a buscar o meu olhar e novamente lhe observei uma expressão facial especial.
Fiquei curioso, a imaginar qual teria a razão para aquele comportamento que me pareceu francamente fora do normal. Nem a expressão facial parecia própria de um bebé, ainda de mama como aquele era, e muito menos me parecia normal aquela clara insistência do olhar e a reacção subsequente.
De repente fez-se luz. Lembrei-me que talvez um mês antes tinha estado na brincadeira com ele num restaurante. Era o Manel! Algo na nossa brincadeira teria deixado uma qualquer marca porque lembro-me que, depois de terminada a refeição, enquanto se ia embora, ao colo do pai, o bebé se despediu de mim com um aceno que foi, aliás, notado pelos presentes. 
Confirmei com a mãe. Sim, tinham estado no restaurante nessa noite, ela lembrava-se de todo este episódio perfeitamente.
Ora bem: ontem o bebé reconheceu-me. Para minha vergonha confesso que, na altura, não me lembrei, eu, de tudo isto. Mas recordo-me que, quando notei aquele seu primeiro olhar, me passou pela cabeça que havia qualquer coisa de familiar no rosto daquela criança. Foi a insistência dele, como que a dizer-me "então não te lembras de mim?", que me fez recordar o que se tinha passado naquela noite.
Esta história não tem conclusão ou "moral". Mas quem me lê irá decerto poder extrair muitas conclusões e descobrir a "moral por detrás de tudo isto. E irá escolher decerto a que mais lhe convier.

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