segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Um exercício de inteligência e de cidadania



Desculpem-me vir aqui, de certa forma, falar em causa própria, mas é inevitável. 
Refiro-me à exposição Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] ∙ Paisagem e povoamento, inaugurada no dia 17 de outubro, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães e aberta, para a sua visita, até ao dia 31 de janeiro.
Há mais, mas, no meu entender, são três os argumentos principais para não perder esta mostra. 
Em primeiro lugar, trata-se de celebrar o triunfo da fotografia como elemento mediador entre o espaço real e o imaginário. Apesar de esta exposição incluir muitos outros elementos (algumas verdadeiras preciosidades, raramente ou nunca vistas antes) que ajudam esta mediação — mapas, relatórios, fichas, atlas, filmes, sons — é na fotografia, neste seu papel de mediador, nas potencialidades e nos limites que carrega para o exercício dessa função, na sua aura e no seu sortilégio, que se situa o coração deste projecto ímpar. 
Contribuir para esta grande celebração, participar nela, poderia ser argumento suficiente para visitar Guimarães. 
Mas há mais, como disse. 
Em segundo lugar, esta mostra distingue-se pela amplitude da sua cobertura. É única na diversidade dos autores incluídos, nas suas filosofias e estratégias de acção e respectivas áreas de intervenção. Nunca terá sido reunido um conjunto tão grande de peças e autores, dentro deste tema, obedecendo a um critério tão amplo de selecção. O valor desta mostra é — por este simples motivo — praticamente incalculável.
Em terceiro lugar, o que esta exposição nos propõe, no seu conceito, é um exercício de inteligência e de cidadania, que poucas vezes nos é proporcionado em situações deste tipo. Um exercício que demonstra, em si, uma rara sensibilidade e um grande respeito pelos seus destinatários, que não é possível deixar de assinalar. 
O que o visitante tem garantido, ao percorrer a exposição, é a oportunidade de ir apanhando as pontas de um delicado novelo, que vai podendo fiar ao seu ritmo, naquilo que se pode designar por um verdadeiro processo interactivo. Não uma falsa interactividade, desenhada a computador, mas a verdadeira (que o computador também pode proporcionar...), feita de um subtil processo da mente, profunda, estimulante, culturalmente enriquecedora. 
O que fica disponível, no final, é a possibilidade de o visitante fazer o que quiser, quando quiser, com o produto desta fiação. 
Não é um feito despiciendo este que a exposição Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] ∙ Paisagem e povoamento alcança. Não a visitar é um pecado imperdoável...



Centro Internacional das Artes José de Guimarães
Plataforma das Artes e da Criatividade
17 de Outubro 31 de Janeiro

Sinopse: A fotografia tem um duplo eixo operativo que se desloca entre o documento e o discurso. O território tem sido um lugar de indagação e de reflexão, de constituição individual e coletiva. Transversal a várias disciplinas, à fotografia tem cabido um papel central nessa tarefa de mapeamento. Tendo como ponto de partida a expedição à Serra da Estrela, realizada sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1881, que contou com a colaboração de Martins Sarmento, a exposição reúne um conjunto de inquéritos ao território em que a fotografia (e em alguns casos o filme) assume particular relevância. Pondo lado-a-lado um amplo conjunto de imagens, documentos e publicações, alguns deles não antes vistos em contexto museológico, oferece-nos uma miríade de retratos do território português, tão diversos quanto fascinantes, que nos induzem a uma reflexão sobre nós mesmos e o lugar em que nos foi dado viver. 

Elenco: Expedição Científica à Serra da Estrela (1881), Carlos Relvas, Orlando Ribeiro, Inquérito à Arquitetura Regional (1955-1957), levantamentos realizados no âmbito do trabalho do Centro de Estudos de Etnologia (Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamin Pereira), Alberto Carneiro, Luís Pavão, Duarte Belo, Álvaro Domingues, Nuno Cera e Diogo Lopes, Paulo Catrica, Valter Vinagre, André Príncipe, Daniel Blaufuks, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Álvaro Teixeira, Jorge Graça, Carlos Lobo, Eduardo Brito, Duas Linhas.
Projecto sonoro: Carlos Alberto Augusto

Curadoria: Nuno Faria