sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Dizer por música



Victor Hugo disse da música que ela expressa algo que não pode ser dito, mas sobre o qual não se pode ficar calado. Esta economia da música estende-se, creio, a muitas outras manifestações do espírito humano. Por outras palavras, há música em muitos dos nossos actos e actividades. Há música nas outras artes, há música na ciência, há mesmo música no dito, ou seja, podemos expressar algo que não pode ser dito naquilo que é efectivamente dito. Não há aqui jogos de palavras. Podemos escrever ou pintar com música. Talvez esteja aí a origem daquela expressão "isso é música para os meus ouvidos!" Há, com efeito, situações, factos, pessoas que são música, neste sentido que Victor Hugo lhe quis dar.
Há, desta forma também, é fácil percebe-lo, música nas palavras de Antonio Tabucchi.
A Antonella Barletta juntou-se finalmente a nós, completando assim a equipa que produz "Mulher de Porto Pim", a leitura encenada que viemos realizar à Ilha Graciosa baseada em obras do escritor italiano. 
O piano da Antonella ressoou ontem, pela primeira vez, no Clube Naval da Ilha Graciosa. É este piano que diz aquilo que não pode ser dito sobre estes textos. É este piano que expressa aquilo que o próprio Tabucchi, na perfeição da sua palavra e no rigor da sua forma, não disse, mas que nesta transposição que fizemos para o palco destas suas obras, também não pode ser calado. 
O resultado, no caso desta "Mulher de Porto Pim", é admirável, embora não tenha sido simples obtê-lo nem ele tenha sido, ao contrário do que porventura possa parecer, fruto de mera inspiração. 
Não deixa de ser verdade que o facto da Antonella Barletta ser, ela própria, música, ajudou...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Sortilégios da Graciosa




Em "Caça à baleia" – um dos contos de Tabucchi que compõem esta leitura encenada a que demos o título genérico de "Mulher de Porto Pim" – o vigia grita, a dada altura, "baleia à vista!"
Este grito fazia parte da complexa "semiologia dos baleeiros". Ouvia-se no navio quando era chegado o momento de iniciar as operações da caçada.
Em terra, a proximidade da baleia traduzia-se por um sinal sonoro diferente. O grito precisava de chegar mais longe. Um som cumpria essa função. O som de um foguete, especialmente criado para este efeito, estralejava indicando a proximidade da baleia e simultaneamente a sua localização. Mais tarde uma "buzina", uma espécie de sirene accionada manualmente, dava o alerta. A localização e estado da baleia eram, neste caso, indicados por um sistema complementar de bandeiras.
Depois surgiu a "fonia". A nova tecnologia aumentou o raio de alcance da "semiologia dos baleeiros", transformando-a, dando-lhe a precisão e a sofisticação que o uso da linguagem proporciona. A informação necessária podia agora ser projectada a uma maior distância, sem condicionamentos de direcção, independente das condições de visibilidade e sem as ambiguidades semânticas de foguetes e buzinas.
Sofisticada e precisa é a linguagem de Tabucchi. Transforma-nos. Fizemo-la viajar até aqui aos Açores . À beira das águas que alimentaram a sua gestação, tentamos, nós também, na forma desta leitura encenada, ir mais longe, sem constrangimentos de direcção ou de visibilidade, dando voz a uma linguagem que ao som destas águas se torna particularmente cristalina.
Sortilégios da Graciosa .

domingo, 6 de setembro de 2015

O afinador dos Açores



"É preciso encontrar a afinação e mantê-la", explicava-me Márcio Vargas, o afinador de pianos açoreano. Diz-me isto enquanto afina o piano com o qual Antonella Barletta — a pianista italiana que connosco percorre a rota desta "Mulher de Porto Pim" — executará duas pequenas valsas, em ternário Morricone com travo ilhéu, que marcam a distância entre duas das quatro histórias de Tabucchi que compõem esta leitura encenada.
O que Vargas me procura dizer é que, depois de encontrada a tal afinação, ela terá de ser mantida, pese embora o quadro de funcionamento de um mecanismo complexo, delicado e sensível, feito de cordas, teclas, martelos, feltros e pedais, que é o piano, tocado pelos dedos de um pianista, em condições ambientais que podem ser muito variáveis.
Afinar um piano não é, pois, encontrar simplesmente a frequência exacta. É assegurar que ela se mantém exacta nas circunstâncias particulares em que o piano vai ser tocado. Aí reside a arte do afinador.
"É preciso encontrar a afinação e mantê-la"... Justamente aquilo que tentamos fazer desde que aqui chegámos: encontrar a afinação justa para o objecto que estamos a construir com as palavras de Tabucchi.
E depois manter tudo e todos, tendo em conta as circunstâncias especiais em que o nosso trabalho decorre, dentro dessa afinação.