sexta-feira, 17 de julho de 2015

Amor e morte




Não há absolutamente nada na vida que substitua viver um grande amor. Não há transcendência artística, exaltação filosófica, êxtase metafísico, glorificação social, transe ritual, não há nada que consiga equiparar-se sequer ao sentimento que emana de um grande amor.
Sem querer soar "moralista", acho mesmo que um dos grandes problemas da humanidade poderá ser a falta dessa experiência. Quantos tiranos não passarão, no fundo, apenas de desamados, quantos crimes violentos se poderiam ter evitado se o criminoso tivesse experimentado uma daquelas paixões de caixão à cova? Quanta frustração, quanto acto irreflectido não são consequência, simplesmente, do facto da procura não ter correspondido à oferta?
No fundo, queremos viver o grande amor. É a nossa vocação de seres humanos, por mais bonitos ou feios que sejamos, esteja o nosso percurso de vida num estado adiantado ou em fase preambular, por mais alto ou baixo que o nosso pecúlio nos coloque na tabela social.
Caminhamos. Todos caminhamos, mesmo que por vezes caminhemos em direções indesejadas. Caminhamos para a morte, por exemplo, mas não é ela que nos impulsiona. Um impulso poderoso, que nos faz caminhar, seguir em frente, é um grande amor.
Há, claro, uma diferença entre o amor e a morte. No caso da morte — que todos sabemos ser inescapável —, não precisamos de a experimentar para sabermos a reacção que ela nos provoca. Ninguém precisa de morrer antes para poder entender, por experiência própria, o que é morrer. Ninguém repete o acto para ter a certeza, porque saiu mal da primeira vez ou porque saiu bem e pode ser que seja novamente bafejado pela sorte. Ninguém se divorcia da morte. 
No caso do amor, pelo contrário, é a experiência que nos confirma a sua importância. O amor conhece-se amando. Todos lhe podemos adivinhar a importância e o poder que tem, mas para saber de facto do que se fala, quando se fala de amor, é preciso experimentá-lo. De uma forma ou de outra, mesmo que seja para pôr termo à experiência.
É preciso sentir-lhe o cheiro, experimentar-lhe os efeitos, ser arrasado pelas consequências, vislumbrar-lhe os contornos, apalpar-lhe os tecidos, pressenti-lo na silhueta fortuita que nos passa diante do olhar, no decote, no timbre de voz que vibra como um cristal, numa palavra a provocar-nos uma qualquer indizível e subtil sensação. Nessa altura ficamos, de facto, a saber a distância que separa a morte do grande amor.
O grande amor, quando finalmente o conhecemos, é depois, simplesmente, este gosto que fica na boca, mesmo na ausência do ser amado e a aceitação do desgosto que possa ter causado.
É simples.
A morte é inevitável, o amor depende do acaso. Ninguém se livra de morrer porque a probabilidade disso acontecer era maior ou menor. Mas a probabilidade de não viver o grande amor é elevadíssima. Os dados do amor têm muito mais do que seis faces. E a muitos — diria, à maioria — jamais tocará, ao lançar esses dados na mesa verde do casino da vida (!), o privilégio de ver sair a combinação certa. Uma grande parte da humanidade fica assim inexoravelmente privada desta experiência vital porque teve azar ao jogo. Essa má sorte dupla será, quem sabe, uma espécie de morte prematura.
Conclusão: volto, porque é de música, ou melhor, de poesia lírica que aqui falo, da capo, ao início: não há nada na vida que se pareça com o viver um grande amor...