domingo, 12 de outubro de 2014

Falemos de nós (novamente)

Cerca de trinta anos e 40 peças depois volto a um tempo e a um lugar onde fui artisticamente feliz. Tive de novo um daqueles problemas para resolver em que a solução surge como que por magia, ditada por uma força qualquer criativa que não controlo. Um daqueles momentos raros em que, como dizia Pat Metheny numa sua entrevista, somos levados a pensar que, entre tantas dificuldades, sacrifícios, carências, tensões e pesadelos, não estamos loucos e foi para isto que escolhemos fazer o que fazemos.

Desta feita sei, contudo, qual é a causa desta "inspiração": o texto de Fernando Mora Ramos chamado "E no princípio era a besta". Atingiu-me e sobressaltou-me desde o primeiro parágrafo.

O Fernando é, entre outras coisas, um dramaturgo de elite. Estará a cometer um pecado capital, de consequências trágicas, quem desconhecer a sua escrita dramática. Será autor de um crime sujeito a pena capital quem apenas andar atento ao dramaturgo de serviço ou à escrita da moda, pensando que o mundo começa e acaba nos limites estreitos de uma limitada visão tão periférica e ignorar a escrita dele. 
  
O Fernando é um escritor compulsivo, que escreve, não para sobreviver, mas porque a sua escrita é a vida mesmo. Escreve para que nós sobrevivamos. As moléculas desta escrita entram num processo, quase literalmente, químico, talvez alquímico, e transformam-se. É escrita real, de rei, cheira! Esse processo de escrita faz, por sua vez, disparar reacções físicas nos seus ouvintes/leitores, também elas reais. Os músculos contraem-se e distendem-se, de facto, os pulmões enchem-se e esvaziam-se, mesmo. O coração bombeia e desbombeia palavras a ritmo. Palavras que são absorvidas pela corrente do pensamento e, por sua vez, distribuídas pelos órgãos da mente que delas se vão alimentar. É verdade, sente-se, senti-o já. É uma escrita orgânica, essencial, que vence resistências e que, ao fazê-lo, nos faz, a nós, avançar, como algo orgânico, essencial, vencendo resistências.

Ao longo destes cerca de trinta anos de colaboração, eu, um homo acusticus, como ele me chamou um dia, aprendi com ele o valor do texto. Por vezes à custa de um exercício muito concreto de humildade, em que a acústica desceu ao real — chamemos-lhe a realakustik! — e se remeteu ao seu papel mais essencial, ao som necessário, ao som suficiente da palavra dita.

Com o Fernando aprendi a usar o condimento sonoro com a parcimónia de um experimentado cozinheiro. A frescura dos produtos é a essência da boa cozinha. O condimento, por vezes, serve apenas para disfarçar a sua falta de qualidade. Com o Fernando aprendi a não me valer de truques, que conheço, mas não uso. São opções. Uma pitada discreta basta, por vezes, para soltar sabores.

Curiosamente — ironicamente, diria eu —, em "E no princípio era a besta", numa dramaturgia onde a palavra é a rainha mais que absoluta, há um cenário acústico presente do primeiro ao último segundo do espectáculo. Como nunca houve em qualquer das nossas anteriores colaborações. Mas o som, desta forma assim omnipresente, é texto. Foi-lhe dada a possibilidade de escrever a parte despalavrada do texto.

Mais ironicamente ainda, acrescentaria, num teatro da terra, da madeira com o veio à mostra, do relâmpago violento, num teatro sem verniz, num teatro sem máscara, o som deste "E no princípio era a besta" é totalmente artificial, resultado de um complexo processo electro-matemático que produz a vibração primária. A máquina, também ela desnudada, também ela madeira electrónica com veio à mostra, sem verniz, sem máscara, a máquina vibra, conduzida, mas não limitada, pelos seus primeiros princípios. É uma vibração essencial que dita um som rugoso, primal, para um texto sem maquilhagem, que atinge o alvo ao primeiro tiro.

O Fernando Mora Ramos escreve como vive, com coragem, disciplina, conduzido, mas não limitado, pelos seus princípios primeiros, que respeito e partilho. Tem sido um exercício exigente, mas vital, este de estar à altura dele. 

Estou tão ansioso e excitado com esta estreia como estava antes de estrear o Ruzante, Fernando.





("Falar de nós" aqui.)

terça-feira, 24 de junho de 2014

Aprender a ensinar

Há muito poucas coisas que me dêem mais prazer na vida do que ensinar e aprender. E dá-me ainda mais prazer poder aprender a ensinar. O trabalho que estou a fazer no IPA, no curso de Design Sonoro, cobre este vaivém e tem sido uma oportunidade privilegiada de fazer uma coisa que me dá todo este prazer e de que gosto genuinamente. Sem reservas.
Futuramente tentarei aqui falar mais deste tema de forma mais detalhada. Por agora queria prestar por esta via, uma singela homenagem à turma do 2º ano, distinguir o seu empenho e exortar os alunos nesta altura a não vacilarem, não esquecerem o sonho que os levou a escolher esta licenciatura, a trabalhar, duro, e a procurarem sempre manter a energia, a curiosidade e a disponibilidade que mostraram até agora.
Aqui ficam algumas fotos da última aula, de autoria de Miguel Cordeiro.
Nesta aula, em particular, trabalhámos na gravação das vozes do projecto final deste ano, uma peça de teatro radiofónico baseada no intrigante texto de Kurt Vonnegut "2 B R N 0 2 B".
Até 5ª...










segunda-feira, 2 de junho de 2014

A paisagem sonora portuguesa em análise


Um novo livro sobre a paisagem sonora portuguesa, o primeiro sobre este tema a ser editado no País, acaba de ser publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, na sua colecção Ensaios.
Ruído, silêncio e música, a paisagem sonora harmoniosa e a disfuncional. Como soa Portugal? Estarão os portugueses dispostos a ouvir?
Uma obra essencial para quem se interessa pelos temas do som e da comunicação em Portugal. Disponível também aqui.

domingo, 18 de maio de 2014

Gary Burton e a fusão de partículas


Faz hoje exactamente um ano, assisti a um fenómeno verdadeiramente invulgar e empolgante. De tal maneira invulgar e empolgante, com um impacto de tal forma poderoso, que, passado todo este tempo, ainda não me consegui recompor. A coisa aconteceu mesmo ao meu lado, estava eu a ouvir o Burton. 
Tratou-se de uma colisão de partículas, um desses fenómenos da natureza que ocorre quando Deus decide e que os cientistas teimam em querer explicar, felizmente sem grande sucesso, diga-se de passagem. 
É daqueles casos de que só nos apercebemos em circunstâncias muito especiais, como aquelas que tive o privilégio e a felicidade de viver, em primeira mão, ali mesmo, enquanto via e ouvia o Burton, a centímetros do acontecimento, deitando-lhe simultaneamente um olho, assim de soslaio, o que me permitia ir percebendo o que se estava passar. Num agitado estado de alerta total, conduzido sabe-se lá por que força, talvez uma percepção inexplicável de que algo de facto invulgar se estava ali a passar.
A Física descreve-nos vários tipos de interacção entre as componentes subatómicas da matéria e ensina-nos (e quem sou eu para pôr em causa tais ensinamentos...) que, numa colisão de partículas, a energia disponível é a que existe para produzir matéria nova a partir das partículas em colisão. Dois núcleos repelem-se a grandes distâncias, mas se forem suficientemente aproximados, colidirem e a energia disponível for suficiente, fundem-se. 
Deste processo de fusão, sabe-se hoje, resulta a libertação de grandes quantidades de energia. Muito mais do que a necessária para que ocorra a fusão em si mesma. O Sol, por exemplo, está em constante processo de fusão e liberta desta forma as quantidades brutais de energia que nos vão aquecendo os dias. Por aqui, pela força exibida pelo astro-rei, se vê o potencial e a dimensão do fenómeno.
Leptões, bosões ou quarks são partículas de que toda a gente ouviu falar. Mas estas de que vos falo, nem os mais reputados laboratórios de física de partículas do mundo as conhecem e nenhum físico iria alguma vez prever o que se iria passar entre elas.
Algo aproximou aquelas partículas que observei, mesmo ao meu lado, enquanto ouvia o Burton, e as empurrou uma contra a outra. Foi uma total fusão, sem dúvida, que ocorreu, embora as conclusões desta minha observação – não tenho formação em Física, para além da que me foi dada no liceu, que me permita retirar conclusões mais sustentadas – não contenham, por um lado, nada de científico e, por outro, eu fosse, naquele caso, um observador totalmente parcial. 
Mas, afianço-vos, as duas partículas que observei fundiram-se numa só, ali mesmo, ao meu lado, perante o meu olhar, enquanto o Burton tocava. 
Este processo de fusão nuclear é sobejamente conhecido. Mas nenhum dos cientistas que sobre ele teorizam poderia certamente prever este caso de violenta interacção entre estas duas partículas, que eu vi fundirem-se instantânea e intimamente, mesmo debaixo do meu olhar, ao som do Burton.
Ali mesmo, sentado à beira do fenómeno, numa noite de maio, faz hoje precisamente um ano. Eu vi tudo, embora mais ninguém, dos muitos que estavam à beira das partículas, tenha percebido o que se estava passar naquele momento.
Duas pequenas partículas, se observadas à escala deste universo infinito. 
Duas pequenas partículas a brincar ao astro-rei.
Dois pontos faiscantes que entravam inexoravelmente na órbita um do outro, transformando-se de repente numa só, nova e esplendorosa explosão de energia.