domingo, 19 de maio de 2013

Heaven, I’m in Heaven


Cumpriu-se o desígnio: o New Quartet de Gary Burton veio mesmo ao Estoril e, mais uma vez, eu que não sou crítico, venho aqui deixar algumas simples notas de trabalho de campo...
Acompanho a actividade musical de Gary Burton há mais de 40 anos. Tudo começou pelo fascínio inicial que me provocou a sua técnica e continua hoje com o fascínio absoluto que a sua música teima em me provocar.
Cada disco e cada concerto de Burton constituem uma lição de musicalidade, técnica e de domínio da arte de ser um músico de jazz profissional.
Este New Quartet é a montra mais recente de todas estas qualidades. Foi um privilégio podermos assistir a esta passagem pelo Estoril, no âmbito de uma longa tournée que o quarteto está a realizar e o Estoril Jazz está de parabéns por ter agarrado a oportunidade.
A música deste quarteto não é especialmente inovadora. A inovação em Burton começou na técnica que desenvolveu —ainda muito jovem— para o seu instrumento, no formato dos seus grupos e no conceito de fusão (jazz/rock) que ele introduziu, muito antes de Miles, aliás. Hoje esta inovação original faz parte da derme musical de Gary Burton. Foi pena o reportório não ter incluido nenhuma composição de Vadim Neselovskyi, um dos seus outros pupilos, porque, aí sim, estaríamos a reentrar no domínio da inovação musical.
Mas, não é de inovação musical ou de técnica que aqui estamos a falar. Falamos de música erudita e falamos do virtuosismo —que já está em patamares galácticos— que estes músicos atingiram na exploração de uma fórmula que marca a música de jazz (improvisação sobre uma estrutura harmónica), única na história da Música. Já tinha abordado este tema aqui, curiosamente também a propósito de um concerto de Gary Burton. É de música erudita, pois, que estou a falar.
Burton nunca esteve só nesta sua jornada. O New Quartet conta, com a colaboração de, para além dos dois sólidos pilares, Scott Colley e António Sanchez, um músico que não posso, sobretudo, deixar de destacar, Julian Lage. O jovem guitarrista (de origem tripeira!) constitui, para mim, a maior novidade dos últimos tempos neste instrumento. Em boa hora Burton decidiu dar palco a este pequeno prodígio, que veste a sua guitarra e a usa para exibir uma verve, uma elegância, uma organicidade, um humor e uma energia únicos. 
A noite de ontem foi especial. A companhia foi (*) encantadora, a música ferveu. 
Foi pena o New Quartet não ter tocado Neselovskyi, mas foi sobretudo pena não ter tocado o “Cheek to Cheek”. Certamente que lhe teria dado um tratamento que nos obrigaria, como sempre, a ficarmos presos ao lugar e os primeiros versos serviriam de hino a uma noite perfeita.

(*) É e será sempre...



NB- A foto é de Brian Evans e foi “picada” da página de Gary Burton no Facebook. É bem melhor do que a foto que consegui tirar do concerto e incluí na versão original deste post.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Falar de nós


A minha colaboração com o Teatro da Rainha soma 25 peças. Ao longo de todos estes trabalhos —na verdade, desde o primeiro de todos eles— o som tem sido uma dimensão desta nossa cooperação a merecer um cuidado e uma preocupação muito especiais. Do Falatório do Ruzante (a primeira para a qual concebi a música e aquilo que mais tarde começaríamos a designar por “cenário acústico”) até este Fernanda, quem falará em nós, os últimos?, o som é uma marca presente, que faz parte da expressão do rigor e inovação que traduzem a actividade da companhia.  
Posso dizer que, no decurso desta já longa colaboração, nos defrontámos com todo o género de desafios, no plano estilístico, formal e, bem entendido, funcional e operacional. O suficiente para termos desenvolvido uma ideia precisa, rica, concreta e muito bem fundamentada do papel do som no teatro, hoje, da sua pragmática e da sua economia. 
Neste arco de quase 30 anos, o que fomos produzindo oscilou entre o trabalho de natureza mais ou menos convencional, passando, diria, culminando, com desenvolvimento de um conceito —de que não possuiremos certamente o certificado de paternidade, mas que ninguém, como nós, explorou em Portugal: o que acima designei de “cenário acústico”.  Foi em 1988 que, pela primeira vez, usámos esta expressão, a propósito do trabalho levado a cabo para a peça O Menino Rei
O que verdadeiramente distingue o envolvimento sonoro desta  peça Fernanda, quem falará em nós, os últimos? é, não o estilo, a natureza específica do material sonoro ou o papel do som desta nova produção, mas a estratégia de trabalho, a anunciar novos caminhos possíveis, a sugerir papéis menos convencionais e alternativas à “especialização”, quem sabe a antever uma nova era que queremos ver despontar. Para efeito da folha de sala, as funções serão as mesmas, mas o processo de trabalho foi tudo menos convencional. 
Um processo pouco convencional para uma peça, também ela, pouco convencional. 
Fernanda, quem falará em nós, os últimos? é uma evocação de Fernanda Alves, a grande actriz portuguesa desaparecida em 2000, feita a partir de uma montagem de textos alegóricos, ancorados em torno de Fernanda (2000), o livro-luto de Ernesto Sampaio, marido da actriz, que faleceu menos de um ano após a morte da sua mulher. Cruzei-me com a Fernanda Alves, profissionalmente, uma única vez, em 1994, na peça Tudo bem o que bem acaba, de W. Shakespeare, produzida pelo Cendrev. O suficiente para guardar dela uma memória viva. Este trabalho faz-me agora cruzar também, com a experiência dolorosa do autor, nas suas muitas interrogações.

Habitualmente, o trabalho de criação sonora para teatro funciona no seio de um espaço triangular definido por três vértices (*). Um dos vértices é dado pelo encenador, de acordo com as suas necessidades de preencher determinadas funções dramatúrgicas ou de operação do espectáculo. O outro, é dado pelo próprio compositor ou designer sonoro que concebe música ou envolvimentos sonoros para a sua versão dramatúrgica do texto. Uma outra, finalmente, pode decorrer de solicitações do próprio texto, didascálias, canções, música ou outros elementos e referências sonoras explícitas, indicados no texto. 
No caso em que exista uma divisão total do trabalho, e desconhecimento da natureza profunda do contributo de cada membro da equipa pelo trabalho dos outros, numa situação limite, o encenador (o realizador, ou o coreógrafo) pode ignorar a natureza do som e atender apenas a factores de índole funcional nas solicitações que faz ao compositor ou ao designer sonoro. O risco nesta situação é o de pode estar a comprometer a sinergia  criada pela introdução deste elemento, que pode perturbar ou contrariar mesmo o sentido dramatúrgico de um texto. O mesmo se pode passar no caso em que seja dada ao compositor carta branca sobre as decisões relativas à música, no caso de este não entender o seu papel no contexto em que trabalha ou sem que lhe sejam atribuídas quaisquer fronteiras. O  resultado será o da adulteração total do sentido dramatúrgico do texto. A música tem o poder de subverter qualquer leitura feita previamente. Não nos faltam exemplos disso.
Na prática, contudo, o resultado do trabalho com o som em teatro situa-se habitualmente no seio de um triângulo definido por aqueles três vértices. Ou seja, o resultado final estará sempre dentro das fronteiras do triângulo, mais ou menos afastado do seu centro geométrico, dependendo das necessidades do encenador, da maitrise do compositor e dos constrangimentos específicos do texto ou outros. A sua localização exacta dentro deste triângulo é fruto da definição dos vértices. Esta é a situação tradicional.
No caso de Fernanda, quem falará em nós, os últimos?, passou-se, contudo, algo de novo. Não existia uma definição prévia de um modelo de intervenção sonora, nem foram reconhecidos a priori pontos onde essa intervenção devesse ter lugar. Houve uma primeira interpretação sonora do texto, de que
resultou a criação de objectos sonoro-musicais que constituiram uma espécie de “bolsa” à qual se foi recorrendo à medida que o trabalho foi evoluindo. Foi depois feita uma interpretação textual do som, a partir do conteúdo dessa “bolsa”. O trabalho de encenação evoluiu também  em função desses objectos, ditou a sua continuidade ou a sua rejeição.. Novos objectos tiveram de ser concebidos, de acordo com a evolução do processo de ensaio. O resultado final foi um trabalho concretizado, como habitualmente, com grande exigência, enorme apuro técnico e rigor sem compromissos, mas sem hierarquia e sem “especializações” a ditar-lhe os contornos. Uma espécie de escrita colectiva, feita de iterações,, de experiências e de léxicos variados.
Uma forma de trabalho só possível, é certo, como consequência da enorme cumplicidade, empatia e pela óbvia admiração mútua existentes entre os operários deste projecto — esta forma de trabalho tinha já sido esboçada noutras peças, como Estação Inexistente, por exemplo—, que produziu um resultado deveras supreendente. Uma experiência fora dos cânones (até dos nossos cânones pouco canónicos), inovadora.
Fernanda, quem falará em nós, os últimos? é uma coprodução do Teatro da Rainha com o Teatro Nacional de São João e estreia no próximo dia 22 no Mosteiro de São Bento da Vitória.



(*) De um modo geral, a fórmula é equivalente para as outras especialidades envolvidas na criação teatral e válida também para outras formas de criação artística colectiva como o cinema, video ou a dança, por exemplo.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A catarse no teatro das didascálias

São cinco estreias esta noite. Na companhia do autor. O Teatro da Rainha faz a estreia mundial da peça "O Teatro dos Papás", de Joseph Danan. A estreia contra a maré.
"O Teatro dos Papás" é uma escrita intrigante, verdadeiramente inovadora e arrebatadora, de uma eficiência brutal (sobre a escrita de Danan veja aqui uma entrevista do autor dada ao encenador Fernando Mora Ramos). Escrita de uma economia tal que chega a ser um espectáculo em si. Um retrato subtil da mecânica escondida que governa o nosso mundo.
Um resultado totalmente conseguido, que cada um descodificará segundo as suas necessidades e a sua capacidade de leitura da realidade. Como grande obra que é, ali cabem todas as realidades. 
"O Teatro dos Papás" constitui uma visão poderosa e original do que pode ser o teatro hoje.
O espectáculo é ainda a oportunidade para assistir às estreias profissionais dos três actores e da cenógrafa que completam a equipa que produziu esta peça. Mais quatro razões poderosas para ver este "O Teatro dos Papás", para o qual contribuí com a minha música.
Mais informação sobre a peça, incluindo calendário e horários das apresentações, aqui.