quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Não me imagino, também eu, a viver de outra forma...

Aqui há uns dois anos conheci John Paul Jones, o baixista dos Led Zeppelin. Confesso que parecia um miúdo quando, a meio de um jantar, conversávamos animadamente ele e eu, e, de repente, dei-me conta que estava ali com o membro de uma banda que me deu forte volta à cabeça quando apareceu. A novidade Led Zeppelin levava-me (a mim e a dois ou três amigos da altura), no final dos anos 60, a peregrinar diariamente em direcção a um bar em Cascais para ouvir o seu primeiro album. 
Quando conheci John Paul Jones dei-me conta que afinal era um ser humano (ah!), de uma extrema gentileza, mas de uma energia inesgotável e contagiante. Para além disso é um dos mais antigos utilizadores do Kyma e, só isso, seria tema para infindável conversa.
Não tenho, pelo contrário, qualquer simpatia especial pelo presidente dos E.U.A.. Mas, ao ouvi-lo dirigir-se aos homenageados desta cerimónia, onde se inclui, entre outros, este mesmo John Paul Jones, ao ouvi-lo dizer, para ele e para os outros, que “They didn't just take up their crafts to make a living, they did it because they couldn't imagine living in any other way...” senti um pequeno frémito. Há um presidente de um país (a América, neste caso, mas podia ser outro qualquer) que pode dar-se ao luxo de pronunciar estas palavras sem temer que lhe chamem demagogo ou oportunista. Porque a verdade é que, esquecendo, por momentos, os artistas que tiveram de suportar o macartismo e descontando a prática esquizofrénica americana noutras paragens, com o desfile infindável de crimes, nunca devidamente punidos, contra a Humanidade e as vidas que foram e são obrigadas a vergar-se aos interesses do império, de seres que decerto se imaginam a viver de outra forma, a verdade é que, na América, quem imagina viver desta maneira não poderá facilmente contradizer Obama. 
O meu pensamento desviou-me então para Belém. Imagino o que era o presidente do meu país poder dizer de um seu compatriota, —Saramago, por exemplo...— que “não se limitou a seguir a sua carreira para viver, fê-lo porque não se imaginaria a viver outra vida.” 
Por mim não pedia tanto respeito pela liberdade dos criadores. Até já nem pedia mais do que deixarem-nos simplesmente viver, quanto mais deixarem-nos exercer as nossas competências porque não nos imaginamos, sequer, de facto, a fazer outra coisa...


PS- Veja aqui um clip da visita dos 3 membros vivos do Led Zeppelin ao programa do David Letterman, pouco depois de todos eles, juntamente com Buddy Guy e Dustin Hoffman, terem sido homenageados pelo presidente americano.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Constança

Não queria deixar de assinalar aqui, singelamente o concerto dedicado a Constança Capdeville “no ano em que comemoraria o seu 75º aniversário.” O concerto foi concebido e dirigido pelo António de Sousa Dias e levado a cabo por um grupo de pessoas que cruzaram caminhos musicais com ela. 
O que poderia dizer, em termos puramente pessoais, sobre a Contança ficará sempre aquém do que sinto. Seria, pois, nessa medida, um acto desinteressante, injusto e inútil para ela e para todos os que me pudessem ler.
Mas , não quero deixar de distinguir o concerto em si. Que melhor homenagem à Constança se poderia fazer? Que forma mais perfeita seria possível encontrar para demonstrar o fulgor do seu talento, invocar a sua infinita generosidade, lembrar a sua inesgotável capacidade para despertar a energia mais recôndita —que pensávamos que já não tínhamos— e o melhor que há em nós? 
O concerto, cujo título “Ce désert est faux” o António sabiamente escolheu, veio mostrar  a importância da  Constança, como se fez sentir e continua a fazer sentir, veio demonstrar a qualidade e o alcance da sua influência em todos nós, e veio, sobretudo, lembrar-nos, nestes tempos de combate e sem margem para dúvida, que o medo é uma ilusão. Ai de quem se deixa vencer por ele e coitado de quem acredita que através dele pode “vencer.”  Raramente ouvimos a palavra revolução dita de forma tão subtil, tão serena, mas tão peremptória e arrasadora, como quando pensamos em  Constança Capdeville. 

A Constança esteve, muito literalmente, viva, no domingo no CCB. Bem hajas António.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A incógnita

O JACC é uma instituição jovem, dedicada à divulgação e promoção do jazz e da música improvisada em geral.
Conheço bem o JACC. Acompanhei-o desde a nascença em 2002 e, no âmbito da minha participação na Coimbra, Capital Nacional da Cultura 2003, fiz o que pude para ajudar o projecto a levantar voo e consolidar a rota. Não fiz mais do que dar uma ajuda modestíssima, não houve mais nada a motivar-me que não fosse a admiração pela coragem e tenacidade desta equipa para levar por diante um projecto que requer tudo isto em doses reforçadas, não sobrou mais nada, passados estes nove anos, que não tenha sido um reforço da minha admiração e uma infinita amizade.
O JACC consolidou e diversificou, ao longo desta sua bem intensa carreira, um percurso sem paralelo no país. Uma percurso recheado de boas iniciativas que revelam uma invejável capacidade de realização, uma assinalável abrangência de acção e um espírito raro de iniciativa no panorama cultural do país. 
O exemplo mais recente desta sua capacidade de iniciativa é o projecto X Jazz – Ciclo de Jazz das Aldeias do Xisto. Trata-se de uma iniciaitiva conjunta do JACC - Jazz ao Centro Clube e da ADXTUR – Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto que visa “criar uma matriz de identificação do espaço com a fruição e criação artística, com natural ênfase para o jazz e músicas com ele relacionadas, aliando-o aos recursos endógenos do território: património, tradição, gastronomia, natureza, paisagem natural e cultural.” 
O programa desta acção iniciou-se em Maio e terminou em 18 de Agosto último com uma residência artística dirigida pelo saxofonista britânico Evan Parker. Tive ocasião de acompanhar a actividade desta residência, que incluiu, para além do trabalho de Evan Parker com os músicos convidados, a exibição do documentário X.TO e vários concertos que foram tendo lugar neste verdadeiro paraíso terreal, que faz esquecer por momentos as troikas e baldroikas em que o país anda metido. 
A utopia é possível. Aconteceu com este X JAZZ. É possível reunir 18 músicos em lugares de sonho, e, literalmente, do nada fazer surgir a música. Também se prova com esta iniciativa a falsidade da ideia de que o público não é sensível a diferentes propostas musicais. A “pimbalhização” da música não passa de uma desculpa para vender produto estragado por fresco. Pode um público musicalmente menos maduro gostar de improvisação livre feita por músicos que praticam um idioma musical complexo? Pode, se lhe derem a oportunidade de a escutar. Neste, como noutros domínios, o que mete medo ao poder é um povo informado.
A utopia é possível. É possível reunir 18 músicos, mais técnicos, produtores, críticos e outros colaboradores, e através da interajuda, do rigor, do espírito de sacrifício e da inspiração produzir algo de novo, orientado apenas e exclusivamente por regras de respeito mútuo, de capacidade de ouvir o outro, de harmonizar os contrários e do exercício do direito à livre expressão musical. 
A utopia é possível. É possível criar um acontecimento de grande arrojo artístico  e associá-lo com enorme sucesso a um projecto de natureza social e económica, com ganhos evidentes para todos, sem “mercados”, sem especulação bolsista, sem notáveis da Fortune 500. Elitário para todos, tal como Vitez disse.
Fica a incógnita desta equação X JAZZ: será que, contra toda a evidência de que é possível, a utopia mesmo assim teima em não vingar?


Nota- Mais fotos deste evento aqui.

domingo, 29 de julho de 2012

Os verdadeiros criminosos

Se dúvidas houvesse sobre o poder da música este exemplo dissipava-as. Já aqui há algum tempo referi um outro exemplo maravilhoso que ilustra bem o poder da música e a capacidade que esta arte tem para forjar um sociedade melhor. Este outro exemplo, vindo agora dos E.U.A., demonstra mais uma vez esse poder.
Pergunto-me o que teria acontecido se os fundos gastos actualmente em programas como este tivessem sido usados em programas escolares de formação musical, na altura certa, de todos estes detidos.
Não é um problema americano. A forma como, em geral, as artes são encaradas nas sociedades avançadas é patética. Os exemplos de cortes ou supressão de programas multiplicam-se um pouco por todo o lado, uns piores do que outros.
Pergunto-me que noção terão os actuais responsáveis pelos sectores da Cultura e Educação do nosso país do significado que têm os cortes que se estão a efectuar nestas áreas para o nosso futuro? Pergunto-me o que pensa o país destes cortes...? Pergunto-me se o país tem noção do que vai ser o seu futuro com mais marginais e mais crianças abandonadas ao seu infortúnio, com a sensibilidade ferida de morte em lutas de gangs. Pergunto-me se o país tem a noção de quantos futuros detidos está a formar ao deixar que estes cortes se multipliquem, sem que ninguém pareça ligar grande coisa, tratando a cultura e a educação como uma coisa longínqua, um luxo a que uma sociedade, entroikada como esta está, se não pode dar?
O que se gasta na formação musical de uma criança hoje será certamente mais proveitoso do que o que se gasta na manutenção da prisão onde ela pode vir a ter de mourejar no futuro.

Quam são, pois, os verdadeiros criminosos: os que cortam os programas de educação e cultura ou aqueles que estão presos em Sing Sing e noutras prisões de alta segurança?




quinta-feira, 24 de maio de 2012

Kyma em Jardim de Inverno


Foi mais uma sessão de “Ler Dom Quixote”, o excelente programa da responsabilidade deste Teatro São Luiz, comissariado por Teresa Albuquerque e Alvaro García de Zúñiga. Ontem, além da leitura habitual, ouviu-se muita música no Jardim de Inverno. 
Em primeiro lugar, ouviu-se e falou-se da música do tempo de Cervantes, numa viagem esplendidamente guiada por Rui Vieira Nery.  
Depois deu-se um salto no tempo para ouvir a Teresa Albuquerque que fez, ela própria, assim, de viva voz, explodir os (algo)ritmos da moldura sonora que concebi para esta sessão. Moldura feita de uma síntese que misturou as palavras de Cervantes com os cliques e espirais sonoras do Kyma, enquanto, lá longe, as vozes cerzidas por D. Pedro de Cristo —um contemporâneo de Cervantes vindo de Coimbra— juntavam a perspectiva de um outro tempo a este tempo que é o nosso.



(Veja aqui o programa desta sessão).

sábado, 19 de maio de 2012

No princípio é o som

Na sua excelente crónica Sinais de hoje, Fernando Alves  traz-nos notícia da abertura das Lojas do Saber, em Coimbra. 
Trata-se de uma iniciativa do professor jubillado da UC, João Pedroso de Lima  que “verificando que o desaproveitamento de tanto conhecimento acumulado, quer por si, quer por outros professores universitários reformados, ‘é uma perda grande para a sociedade’, decidiu lançar as Lojas de Saber. Assim, falou com outros jubilados e mobilizou-os para o lançamento de cursos livres.”
A iniciativa, só por si, é credora de todo o destaque que Fernando Alves lhe dá. Mas, eis que se descobre a cereja em cima do bolo: o primeiro curso, que terá lugar já hoje, trata o tema “Os sons da vida”. O som no nosso quotidiano, as percepções, os sinais, as anomalias.
Definitivamente o som vibra com grande vigor em Portugal!

terça-feira, 15 de maio de 2012

O som vibra em Portugal (3)

Um outro projecto português de documentação, divulgação e criação artística com base no ambiente sonoro. 

As três componentes do projecto: uma editora  Green Field Recordings, a divulgação radiofónica de O Colecionador de Sons, e o site.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O som vibra em Portugal (2)


Um projecto, uma exposição. O Retrato das Paisagens Acústicas Naturais em Portugal é um projecto em curso do MNHN que pretende “documentar a diversidade biológica na sua componente acústica.” Uma mais que bem-vinda iniciativa e um importante trabalho que cobre um vazio inexplicável do País nesta matéria. Ouça uma reportagem da TSF sobre este projecto aqui.
PIU é uma exposição que a equipa do projecto acima descrito organizou sobre este tema. Está aberta ao público até Outubro de 2012. O que é a bioacústica, a diversidade dos sons animais e os seus habitats, os sons das espécies, os seus ciclos e as paisagens acústicas em que estão inseridas são alguns dos temas que a exposição cobre.
Ouça aqui  uma reportagem da RR sobre a exposição .

O som vibra em Portugal (1)


E, de repente, o som vibra em Portugal, parecendo captar as atenções de muita gente. Excelente! 
A Binaural - Nodar anuncia um novo projecto Divina Sonus Ruris para juntar à sua extensa actividade. Saiba mais aqui

“O programa de laboratórios criativos em arte sonora e de pesquisa experimental para 2013 irá precisamente tomar como tema de expressão a riquíssima fonosfera sacra nas aldeias rurais do maciço da Gralheira, enquadrado por um sentido de promoção de um diálogo franco e aberto com as instituições religiosas locais e em consonância com a renovação teológica, litúrgica e cultural”

sexta-feira, 30 de março de 2012

Jojo foi ao S. Luiz


“Jojo, o Reincidente”, a peça de Joseph Danan que o Teatro da Rainha produziue para a qual fiz a música, andou pelo Chiado e foi ao São Luiz, em Lisboa. Umas centenas de crianças de escolas e diversas outras instituições assistiram às representações e participaram nos workshops organizados em torno do tema da peça. Uma iniciativa do São Luiz que faz parte do seu programa para estas férias de Páscoa. 










domingo, 19 de fevereiro de 2012

Cheira a primavera!

Não longe da cena do episódio da Rua Garrett, que mencionei no post anterior, subia eu a Rua das Flores, ouço e vejo ao longe uma garota de uns dez anos, mochila às costas, certamente a caminho de casa depois das aulas. Vinha descendo a dita rua, cantarolando exuberantemente, exprimindo, sem ambiguidades, uma enorme e notória alegria e felicidade. A vozita da miúda reverberava entre os prédios, ali mesmo à saída do parque de estacionamento do Largo Camões.

Não me recordo há quanto tempo me não emocionava tanto com um acto tão simples, genuíno e espontâneo como este.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Música: um investimento de futuro


Rua Garrett, Lisboa. Foi quinta feira passada, seriam umas 17h. Um duo de violino e violoncelo fazia escalas para aquecer. Iam começar o concerto. O mendigo, sentado logo ali ao lado, fazia sinais para os transeuntes, apontava para a boca, parecia querer dizer que tinha fome.
Os músicos, impecavelmente vestidos, começaram a tocar. O mendigo, andrajoso, implorava ajuda. A música parecia acompanhar os gestos suplicantes do mendigo. Uma inusitada e súbita pareceira, ou um duro exemplo de um estranho, mas real, reality show
Ao passar, ouvi um desses transeuntes a dizer para a mulher “ao menos aqueles fazem alguma coisa de útil”. “La musica è tutta relativa,” como lembrava Sanguinetti... E Vangelis dizia numa entrevista à Al Jazeera que “aquilo que mais precisamos no nosso mundo hoje é de investir em beleza.” 

E eu aposto que, no fim da “temporada,” o mendigo vai abrir os olhos, juntar o dinheiro todo que ali obtém à custa do acompanhamento que arranjou para as suas súplicas e vai contratar um consultor em investimentos. Se for um consultor atento, vai aconselhá-o de caras a contratar o duo em permanência...

sábado, 14 de janeiro de 2012

“A senhora depois vê”

“A senhora depois vê,” diz o operário corticeiro para a repórter. A senhora vai ver e vem-nos contar. Nós não vemos, mas ficamos a ver. Está tudo lá e vemo-lo melhor do que se estivessemos de facto a ver.
Intriga-me este ver sem ver através da rádio. As reportagens da TSF, as de Maria Augusta Casaca e outras dos seus companheiros, são uma forma de desvendar o mistério; em suma, de aprender sobre este fenómeno que me continua a fascinar, de forma quase infantil, que é o contar por som.
O País da Cortiça” fala-nos deste mundo do sobreiro e da extracção da cortiça, em que Portugal dá cartas. É uma magnífica reportagem de Maria Augusta Casaca, com sonoplastia de Luís Borges.
Neste caso, trata-se de uma reportagem que trata um tema que conheço bem porque, em tempos, realizei um pequeno documentário sobre ele, chamado “9 Anos Depois...”. 
No caso deste “derby” audio-video devo confessar que fui goleado pelo audio!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"Conferência de Imprensa"

Não me atrevo a fazer aqui “crítica” porque não tenho para isso as necessárias qualificações, mas, de vez em quando, gosto de trazer para este espaço dos Fragmentos um espectáculo, um concerto ou uma qualquer produção artística de outra natureza (veja o Arquivo se tiver paciência) que me tenham impressionado particularmente, que me tenham feito dar um salto na cadeira ou obrigado a sair do conforto da penumbra da plateia para mergulhar decididamente no que me é proposto. Não é crítica, é impressão de viagem... 
Aproveito ainda com estas minhas notas de campo para destacar eventos que muito certamente a crítica, a verdadeira, a qualificada, ignorará decerto...
Hoje foi um desses dias em que tive oportunidade de assistir a um espectáculo que me impressionou sinceramente, um desses que me causou sobressalto. “Conferência de Imprensa” é uma produção do SLTM/TNSJ, com texto e encenação de Alvaro Garcia Zúñiga. Estreou hoje. O texto inteligentíssimo e musical de Zúñiga (que texto!), a interpretação enérgica e subtil de William Nadylam, o ambiente perfeito do Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal, tudo, tudo contribuiu para uma incrível viagem, uma experiência que aconselho todos a fazerem se puderem. 

Não acreditem em mim, experimentem comprovar por vós próprios.