segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sons e silêncios

No último post referi um texto de Paulo Varela Gomes na sua habitual coluna do Público “Cartas do Interior”. PVG é um autor com o qual me identifico (suponho que seja uma mistura de sintonia ideológica e geracional), com o qual partilho muitas ideias e é leitura imprescindível aos sábados. 
Não me surpreende a qualidade da sua escrita e a renovada originalidade dos temas que aborda, mas quando pensava que neste domínio nada me conseguiria afastar desta expectativa cómoda a que me habituou, eis que uma série de artigos em que aborda, mesmo que de forma por vezes indirecta, um tema que me é particularmente caro —o som e o silêncio— me vem desassossegar . 
Recomendo a todos os que se interessam por esta matéria a leitura da crónica de 19/11, justamente intitulada “Silêncio”, a de 26/11 (já referida no post anterior) intitulada “Angelus” e, finalmente, a de 10/12 intitulada “Tempos Mortos”. 
Raramente os autores da minha área da comunicação acústica têm uma visão tão límpida sobre as questões do som e do silêncio e raramente conseguem equilibrar a revelação do universo dos seus sentimentos com o rigor de uma análise bem estruturada e fundamentada. PVG não hesita em, sobre esta matéria, lhes (nos) dar uma lição. 
Um contributo precioso e inesperado para os estudos de ecologia acústica no nosso país.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Sobre os sinos

Uma edição da série Encontros com o Património dedicada aos sinos. Chama-se “Os sinos - outros sons, outros tons” e constitui uma espécie de relatório do estado da arte sobre tudo o que diz respeito aos sinos em Portugal. Ouça aqui, é imperdível.
Este programa surge, curiosamente, mais ou menos no momento em que Paulo Varela Gomes escreve na sua habitual crónica do Público um Angelus (“Cartas do interior”, 2011/11/26) sobre sinos. Fala num “tempo dos mercadores”, construído “à medida que deixamos de ouvir o som antigo dos sinos, que só aos velhos faz hoje semicerrar os olhos, baixar a fronte e suspender por um instante o vazio do tempo.”
“Não há coincidências,” dizia-me um dia uma amiga muito querida. Este texto não poderia ilustrar melhor o programa da TSF. Não pode ser coincidência...


NB- A foto que ilustra o post foi retirada de uma reportagem da RTP sobre a Fundição de Braga, uma das mais antigas fábricas portuguesas de sinos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Viver ao vento

As actividades humanas que se exercem em comunhão com o ambiente que nos rodeia dão-nos uma perspectiva muito rica da realidade. Uma reportagem recente da TSF (inserida na rubrica “Ouvir e verão”) dava conta de um moinho ainda em funcionamento na região do Bombarral. 
Os moinho são destas tecnologias que vivem do ambiente e devolvem o que lhe cobraram com uma preciosa mais valia. Os moinhos utilizados para a moagem do grão são máquinas impressionantes, belas e perfeitas na economia e na eficácia do seu funcionamento, admiráveis na forma harmoniosa como servem o seu propósito.
Os moleiros são seres que, de forma consciente ou não, reflectem tudo isto e revelam, no meio de todo este complicado fluxo de energias benfazejas, uma serena mas profunda sabedoria. 
O som tem um papel crucial no modo de funcionamento dos moinhos. Internamente qualquer peça revela a correcção do seu funcionamento pelo som que emite. O moleiro sabe ouvir e descodificar o som dos mecanismos do seu moinho. Neste aspecto parece um mecânico de automóvel (ver aqui.)
O moleiro deste moinho do Bombarral relatava o controlo que tem sobre o seu modo de funcionamento através dos sons longínquos que lhe chegam aos ouvidos. Os sons do mar ou do interior, distantes de quilómetros, dão-lhe a conhecer o regime e a força dos ventos. 
Este moinho da reportagem não dispõe, aparentemente, de cabaças (como o moinho da foto), uma outra ferramenta sonora que permite, pela frequência do som que elas emitem, ir percebendo a velocidade do vento para ajustar o mecanismo de moagem.

Mas, esse pormenor não interessa verdadeiramente. Para este moleiro o som das velas é bonito, dito assim com a simplicidade das coisas verdadeiras e profundamente sentidas.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Com o coração

Ouço na rádio, enquanto conduzo o meu automóvel de volta a casa, o novo Bispo de Bragança-Miranda, José Manuel Garcia Cordeiro. Diz que vem,  sobretudo, escutar. A frase suscita-me maior atenção. “Não com o ouvido,” acrescenta e esclarece, “mas com o coração.”
Chego a casa e assisto logo de seguida a um magnífico documentário sobre Alberto Korda, o fotógrafo cubano, o fotógrafo do Che e da Revolução. 
A propósito de fotografia e do ensino desta arte, no derradeiro plano deste documentário, enquanto se vê Korda a sair de casa com a sua Canon, ouve-se a sua voz, citando uma frase de Antoine de Sainte-Exupéry do “Principezinho” dizer: “para ver, verdadeiramente, temos de o fazer com o coração.” 

Um coração (esse orgão que parece fazer tão bem a síntese audio-visual), duas maneiras de sentir o mundo à nossa volta. Duas maneiras de tocar o divino.

domingo, 19 de junho de 2011

Reforma e paradiddles

Acabo de ver a actuação da Freedom Band de Chick Corea, no “Jazz à Marciac 2010”. A banda inclui Kenny Garrett, Christian McBride e Roy Haynes. 
Que dizer desta música e destes músicos...? Tudo isso está de tal maneira para além de quaisquer palavras que me limito a destacar, por razões que esclareço adiante, o baterista Roy Haynes. 
Pena este extracto do Youtube, que indico aí em baixo, não conter a dança final que Roy Haynes executa perante os colegas incrédulos e um público em perfeito delírio, mas ficam, pelo menos, com uma ideia da aura absolutamente esplendorosa deste Roy Haynes, a vender energia e a “estragar” a noite aos seus colegas, dois deles bem mais novos. 
Ver este homem, com 85 anos na altura em que escrevo, a tocar assim deveria fazer parte de qualquer programa de recuperação da crise económica. Seria, por exemplo, inspirador passar esse seu solo neste concerto nos ecrãs das repartições da Segurança Social. A ideia de reforma —sobretudo, antecipada— parece-me tão ignóbil que, para a combater, este solo deveria, na minha opinião, constituir visionamento obrigatório para todos aqueles que pretendessem requerer esse estatuto.  
Propunha aliás a seguinte tabela para candidatos a reformado: 
1- Salários abaixo do salário mínimo, uma semana de visionamento ininterrupto, com refeições incluídas.
2- Salários entre o salário mínimo e os 3 000 euros, visionamento seguido durante seis meses. Refeições por conta do requerente
3- Salários ou rendimentos acima dos 3 000 euros, visionamento permanente, sem dormir nem comer, durante 5 anos. Em alternativa, compra de uma bateria e lições obrigatórias, 16 horas por dia. Constitui, para além do mais, um óptimo exercício físico...
4- Se a reforma for antecipada não há prazos. O visionamento seria então obrigatório até ao dia de requerer a certidão de óbito...

Reforma garantida, sim, mas com paradiddles obrigatórios...



segunda-feira, 13 de junho de 2011

Não ouviu

Um homem de 88 anos morreu no Entroncamento, colhido pelo Alfa. Segundo o Público, pessoas presentes na plataforma terão tentado avisá-lo “para não atravessar naquele momento,” mas o homem não ouviu. Usava um aparelho auditivo.

O velhote tinha acabado de chegar de uma visita à filha e atravessava a linha para apanhar a sua bicicleta.” Não ouviu os avisos emitidos pelos altifalantes da estação, não ouviu as pessoas que o tentaram avisar, não ouviu o comboio aproximar-se. Não ouviu.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sound design, marketing ou tontice?

Entro no supermercado e dou de caras com esta preciosidade: uma marca de batatas fritas convida-me — em tom familiar e “tutuando-me” — a “fazer sandes com barulho!”
Como durante muitos anos me dediquei a fazer cumprir as regras para prevenir o incómodo do “barulho” tive, confesso, um arrepio. Não me parece ser esta a melhor forma de sensibilizar as pessoas para a enorme importância do som na nossa vida, nem particularmente excitante esta nova técnica de design sonoro. Por outro lado, o truque de marketing vem provar, sem margem para dúvida (para quem tenha dúvidas...), a importância do som. Os promotores de vendas —que actuam em território certamente seguro e testado— não hesitam em explorar este filão. E fazem-no a um nível muito sofisticado, atingindo um ponto nevrálgico.
Talvez então o marketing possa ser um aliado. Perverso, mas eficaz... 

Pergunto-me se estes estariam interessados em financiar uma campanha de higiene auditiva, imaginem...? Sobre os malefícios do uso de auscultadores (veja aqui ou aqui artigos que ilustram este problema), por exemplo, para a gente nova que eles querem, justamente, cativar com esta nova forma de “fazer sandes”...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

“Vermelho da cor do céu”


Uma reportagem de Ana Catarina Santos e Luís Borges da TSF para ouvir aqui. Sobre a cegueira total feita através de um medium “cego”. Um achado!

domingo, 5 de junho de 2011

Perdão de Natal

O Primeiro Ministro actual não é personagem sobre o qual recaem as minhas particulares simpatias. Tenho-o aliás demonstrado com a frequência possível num outro blog para o qual escrevo. Mas, noblesse oblige, não posso deixar de assinalar a referência que fez ao ruído e o destaque que deu a esta questão durante a recente apresentação do Nissan Leaf.
Em vez de esquecer esta característica ambientalmente positiva do novo veículo, ou de a deixar escondida no meio das outras (emissões de CO2 e consumo energético), Sócrates colocou o ruído em primeiro lugar (eu ouvi!) por duas vezes no seu discurso. Num período em que, ele próprio de maneira não despicienda, contribui para o enorme ‘ruído’ que por aí vai, chamar a atenção para um problema ambiental grave e mostrar uma solução real para o combater, constitui um acto que requer (neste caso, sim!) alguma coragem.

Televisões portuguesas: o horror à música

Os portugueses serão menos musicais que os outros povos? Gostarão menos de música? Praticarão menos música per capita? Será a sua estrutura neurológica diferente da dos outros povos, no que respeita às zonas dos seus cérebros que reagem ao fenómeno musical? A música fará menos parte do seu dia a dia? Estarão menos interessados do que os outros pela música que se faz fora do seu país? Estarão, perguntaria mesmo, menos interessados na sua própria música e na dos seus músicos do que os outros povos demonstram estar pela sua própria? Estas e outra perguntas acodem-me à mente quando, de repente, tomo consciência que não vejo um programa de música nas televisões portuguesas há muito, muito tempo.
Não me refiro a essa imbecilidade dos programas dos tops. Nem me refiro aos músicos que vão tocando nos pouquíssimos programas que têm uma banda residente. Refiro-me aos concertos, aos programas gravados em estúdio, às séries de música, aos especiais de música, em especial os que envolvem música e músicos portugueses. Nem um, em nenhuma das televisões existentes, com especial relevo para a RTP, a tal que é paga, a peso de ouro, por todos os portugueses, a tal cujo orçamento parece não chegar nunca, cujas receitas parecem nunca ser suficientes, e que se vai desdobrando em ámens aos governos e programas para atrasados mentais. Há uns anos ainda se viam umas séries cuidadosamente seleccionadas sobre música, rock, jazz. clássica (sempre do estrangeiro que cá não há músicos...), programas geralmente de grande qualidade.
Já não peço um concerto do Francisco Lopez ou do Pedro Carneiro, nem sequer um daqueles videos do Tiago Pereira. Por mim bastaria um enlatadozinho, desses vindos dos States ou da BBC, com música mainstream, que fosse, mas música! Adorava aqueles casamentos musicais improváveis do Jools Holland. Que é feito do Jools? Ou o “Night Music with David Sanborn”. Escutava com prazer os programas do Rui Neves, ou as outras músicas do Zé Duarte... Onde param? Adoraria saber o que escondem os arquivos musicias da RTP, que, suspeito, contêm tanta coisa fantástica... Que é feito de tudo isso?! E já nem queria programas de música de iniciativa e produção próprias, com música e músicos portugueses. Bastavam os enlatados...
Mas, nada, nem um! Ziltch! Nem uma banda filarmónica, um coro, uma orquestra juvenil, um quarteto de cordas, um tocador de flauta de bisel, a banda da GNR, nada! Nem o maestro do costume Vitorino de Almeida. Não há o perigo do fenómeno musical se banalizar em Portugal. Aqui, a música está na categoria do fenómeno raro, só talvez observável por meio de equipamento especial, como aquelas câmaras de infravermelhos que registam o aparecimento de um animal em vias de extinção, desses raros que vivem nas florestas recônditas e que parecem surgir do nada. A última coisa que me lembro de ver há já bastante tempo, relacionada com música, foi uma série (excelente, de resto) sobre a história da música portuguesa, de autoria de Jorge Matta, que passava a uma hora daquelas que sugere que a RTP não levou este trabalho muito a sério...
O que é mais trágico, mas ao mesmo tempo cómico, é que vejo com alguma frequência músicos, compositores e musicólogos em programas chamados "culturais" (haverá outros?) a falar pormenorizadamente sobre música e sobre questões da vida musical portuguesa como se fosse uma coisa acessível a toda a gente e que toda a gente partilhe. As televisões passam uma entrevista com um compositor a falar da sua própria música, o que demonstra o interesse editorial neste assunto, mas o responsáveis pela programação parecem incapazes de experimentar incluir, na sua grelha, a própria música de que esse compositor fala. Aquilo que devia ser uma reflexão a posteriori sobre a prática corrente, é transformado, sabe-se lá por que razões obscuras e numa total inversão do cenário, no eixo da programação. Tolera-se algum parlapié sobre a música, mas dá-la a ouvir parece estar absolutamente fora de questão. Trata-se, francamente, de um fenómeno aberrante e de uma estranha forma de praticar e fomentar a cultura. Convidam-se uns músicos e uns compositores, arranja-se um apresentador que fala sempre de modo pomposo sobre questões que obviamente não domina, faz-se um espetáculo sobre os músicos e compositores a falar de música, mas não se mostram estes músicos ou compositores a praticá-la. As televisões encavalitam-se, sempre que podem, no "social" que os músicos e compositores geram, concentram-se no epifenómeno gerado por esses músicos e compositores, exploram alguma sua dimensão mais "circense", susceptível de ser valorizada pela câmara, mas esquecem-se de mostrar a actividade que está na base de tudo isto: a música.
O horror à música das televisões “generalistas” portuguesas é um fenómeno que só encontra paralelo no clássico fenómeno do horror que a natureza tem ao vazio. A televisão portuguesa tem horror à música. E, no entanto, por esse mundo fora, as televisões dos outros países passam imensa música, de todas as "convicções", e fazem mesmo uma coisa que as televisões portuguesas não fazem: debruçam-se, imaginem, sobre a música e os músicos portugueses. Músicos que por cá vão observando os ecrãs vazios da sua arte.
 Ele há défices e défices, não é...? Sobre a rádio falarei noutra oportunidade...

 (a foto foi retirada do site da Biblioteca ETG de Barcelos)