quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Mas vamos ter submarinos, caraças!

Um "contexto de contenção orçamental e de redução da despesa pública" foi a justificação arranjada pelo Ministério da Educação para congelar as verbas atribuídas ao ensino da música, no âmbito do chamado ensino artístico.
Trata-se de uma manobra feia, feita, como alguém me apontou, assim, pela calada do verão, que apanha toda a gente de surpresa e em contraciclo daquilo que tinha sido a orientação do ME. Nesta onda de disparar em todas as direcções e atacar os mais vulneráveis, os ataques também chegam à pobre da música que fica assim mais pobre ainda...
A medida é tomada numa altura que não permite às escolas honrar compromissos assumidos em tempo oportuno, prejudicando essas escolas, os seus professores e alunos. E suspeito que, no caso dos professores, os mais prejudicados serão justamente os jovens licenciados que buscam uma oportunidade de se "inserir no mercado de trabalho", justamente aqueles por quem os responsáveis vertem lágrimas cínicas a toda a hora e que dizem querer proteger.
É significativo que esta medida seja tomada pelo Ministério da Educação numa altura em que uma, digamos, escritora detém a pasta, e em que temos como Ministra da Cultura, digamos, uma pianista. Diz bem do peso que elas, a educação e a cultura terão no Conselho de Ministros e diz bem do peso que para estas ministras tem o ensino artístico. Cultura e ensino, são, como fica amplamente demonstrado para quem ainda tinha dúvidas, conceitos descartáveis.

Não pode esta medida deixar de suscitar a todos nós o mais vivo repúdio!

A rádio e os dias que correm



Deixe-me ajudá-lo a “descodificar” a foto. Ia eu a caminho do supermercado, esta manhã, aqui na minha terra, e dou com esta cena: à porta de casa, aproveitando a sombra temporária, este senhor vai gozando, com a tranquilidade que a foto pretende documentar, a frescura da manhã. Tem um pequeno rádio pousado em cima da perna (ora repare; a foto foi feita a alguma distância para não perturbar muito a dita cena.) 
Quem diz que a rádio morreu devia ter passado por aqui hoje. Para além de outras múltiplas funções, aqui está estoutra, quiçá inusitada, que a rádio cumpria de forma surpreendente, mas exemplar: banda sonora para um ensaio sobre a placidez.
Praticamente não se ouvia (se calhar, nem ele...), mas, na altura, a canção que passava era “My favorite things”. Cantada pela Julie Andrews, mas podia estar a ser cantada por outro qualquer, incluindo o próprio senhor da foto. 

Não haveria, por certo, outra canção que melhor pudesse ilustrar o sentimento que parecia transparecer do seu olhar, quando por ele passei. 

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O pingo


”Encontros com o Património” é um esplêndido programa da TSF. Aconselho-o a quem porventura o não conheça. Uma das suas edições é dedicada à obra do arquitecto Raul Lino. Dá-se uma volta pela sua Casa do Cipreste em Sintra, de onde a emissão é feita.
Fala-se do arquitecto, do grande e infatigável desenhador. Fala-se do desenho e do seu valor como “instrumento para ver”. Mas é o ouvido que aqui percorre os recantos da Casa do Cipreste, é o ouvido que recria as suas formas, que “vê” as cores dos seus azulejos, é o ouvido que vai desenrolando a sua planta.
O sino dá o sinal de entrada na Casa. 
De súbito, um pingo! Da pequena fonte há “uma água que cai”. “Uma influência árabe” para quebrar o silêncio, diz o sobrinho de Lino, anfitrião da emissão e actual morador. Ou, se calhar, para minorar a solidão, diz o autor do programa. 

Em qualquer caso, uma pequena fonte concebida pelo arquitecto para “ter um ruído na casa”.