domingo, 25 de abril de 2010

O exemplo de Alcoutim

O presidente da Câmara Municipal de Alcoutim é médico e isso pode, em parte, explicar a razão que levou aquela câmara a decidir criar um inovador Programa de Erradicação da Surdez. A audição é um elemento chave no nosso relacionamento com o mundo que nos rodeia. Muita da nossa “humanidade” virá do facto de termos desenvolvido estratégias  surpreendentemente complexas de sobrevivência, ao longo do nosso processo evolutivo como espécie, assentes no mecanismo da audição. A fala e a música, são traços definidores do nosso processo filogenético, que assentam na evolução do nosso mecanismo auditivo.
Há qualquer coisa de bárbaro em condenarmos hoje pela incúria das instituições sociais, ou deixarmo-nos condenar a nós próprios a um processo, muitas vezes, precoce de ensurdecimento, ou deixarmo-nos vencer por uma noção totalmente descabida de que é “natural” ficar surdo.
Para mim que sou músico este problema é especialmente agudo. 
Uma perda temporária de audição, por exemplo, pode ser um bom remédio para percebermos a importância vital deste sentido. Já me aconteceu e, digo-vos sem rodeios, é uma experiência profundamente traumática (ver aquiaqui e aqui) que não se deseja repetir...
Hoje “os velhotes sorriem em Alcoutim,” e já não têm medo dos sons que reaprenderam a ouvir, segundo uma reportagem da TSF. “As pessoas, os velhotes nomeadamente, acham que é natural ficar surdo e como tal há um isolamento dentro da própria habitação, as pessoas não vêem televisão, não conversam umas com as outras porque acham que não há nada a fazer,” diz o Presidente da Câmara de Alcoutim.
Terá o doutor Francisco Amaral percebido isto pela sua formação profissional, será mais sensível a este problema por qualquer razão pessoal ou por qualquer traço especial da sua personalidade. 

O certo é que a Câmara de Alcoutim e este Programa de Erradicação da Surdez constituem exemplos que não podem deixar de ser destacados.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Há som no ar

Mão amiga chamou-me a atenção para um site da Antena 2 chamado Somdescape (uma corruptela da palavra soundscape, como explica o seu autor.) Um título que chama a atenção para a paisagem sonora que, se estivermos atentos, traduz fielmente os valores que estão subjacentes aos organismos que a produzem e a ouvem. 
O título revela as ambiguidades da audição. Diz-nos que podemos estar a falar de sons dos escapes, o que é mau; ou do som como forma de escapar à ditadura da paisagem sonora pré-formatada que hoje nos é servida por todo o lado, o que é bom.
O programa foi (está a ir?) para o ar e eu, mea culpa, nem dei por isso.
De qualquer forma, é de saudar que neste país de surdos ainda haja quem teime em ouvir, e quem, ainda por cima, dê à crónica os produtos da sua audição. E quem acolha isso... 
A Antena 2, embora se calhar, não se dê disso conta, também faz parte da paisagem sonora e tem enormes responsabilidades nessa matéria. Se tivesse, ela própria, ouvido antes o que se passa à sua volta, tinha percebido que já há muito que se “fonografa” a paisagem sonora portuguesa e o Somdescape seria então, desde há muito, uma regra, e não uma excepção.

Ouvir, como escrevi aqui algures, não vai curar o mundo, mas ajuda. O Pedro Coelho dá aqui, seguramente, a sua contribuição.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os 25 anos da Miso Music

A Miso Music comemora este ano o seu 25º aniversário. No âmbito desta comemoração (cf. o programa da comemoração aqui) houve hoje um concerto no Instituto Franco-Português a que o Miguel e a Paula Azguime deram o nome de “Cadavre Exquis” Electroacústico.
O Miguel teve a bondade de me convidar para conceber uma peça para este Cadavre Exquis musical, à maneira surrealista, que foi estreado com sucesso. Foi para mim um enorme prazer, confesso-o, colaborar nesta iniciativa. 
A minha foi uma das 50 peças apresentadas, fruto do trabalho de outros tantos compositores, distinguidos desta forma pela sua colaboração com a Miso ao longo destes 25 anos.
Ouvindo todos estes trabalhos, observando o rigor e o esforço colocados na produção deste evento, a sua qualidade, a dedicação e o altíssimo grau de profissionalismo de toda a equipa de produção da Miso Music, o espírito empreendedor e o quente acolhimento dispensado a todos, autores e público, olhando para o palmarés invejável desta instituição, tendo, enfim, em conta as condições disfrutadas para a realização das suas actividades, sinto o dever de expressar  publicamente o meu apreço e admiração a todos eles. 
Por escrito, para que conste.
Imagino o que seria se o talento, a capacidade empreendedora, a capacidade de projectar e de empolgar (dentro e fora da instituição), a dedicação, o profissionalismo e o rigor que a Miso Music, os seus mentores e a sua equipa, colocam nas suas iniciativas encontrasse, mesmo que só parcialmente, co-organizadores à altura. Que pudessem ajudar a levar aos limites extremos da sua capacidade uma actividade que, sendo vítima de dificuldades por si incontroláveis, mas fazendo o impossível, fica, infelizmente para o País, pelos limites do possível.

Em Portugal, os governantes e as luminárias do costume enchem muitas vezes o discurso com clichés abstractos sobre as linhas definidoras do futuro, que carecem, contudo, aos olhos do cidadão, de contraprova real e palpável que ajude a dar substância ao discurso generalista e tantas vezes, bem lá no fundo, oco. Pois bem, querem prova real de produtividade, de excelência, de rigor e de poder de iniciativa? Olhem então com seriedade para o exemplo da Miso Music. E apliquem-no.