terça-feira, 16 de março de 2010

Leviandades

Ainda há pouco tempo fiz aqui um elogio a um escrito de Miguel Esteves Cardoso, que me pareceu totalmente justo. Trata-se de um jornalista que gosta de arriscar (reconheço-lhe essa virtude), mas que é embrulhado, ele também, tantas  vezes, nesta vertigem de ter de preencher diariamente o seu pequeno canto de página. Ontem espalhou-se. 
E por se tratar de uma injustiça cometida sobre uma figura que conheço bem e que é tratada de forma totalmente lamentável, não posso deixar de escrever aqui esta nota.
O pretexto da crónica de ontem do Público foi o gosto musical dos candidatos à presidência do PSD. Lá foi de metáfora musical, em metáfora musical até chegar a Gary Burton, dizendo dele que se trata de um talento “mediano que poderia ter sido maior se arriscasse mais.”
Saltou-me a tampa quando li isto! O Gary Burton não merece a colagem ao Aguiar Branco, simplesmente para levar uma duvidosa lógica musical até ao fim, 
Gary Burton é um músico que acompanho há uns quarenta anos. Por causa dele acabei a tocar vibrafone também. É um dos músicos mais respeitados do jazz, com uma carreira que se estende há quase 50 anos, pedagogo, improvisador perfeito, um inovador notável da técnica do seu instrumento (é conhecido o Burton grip), uma referência incontornável neste domínio, e um vanguardista, que como ele próprio lembrava, timidamente, numa entrevista que li, antecipou um dos movimentos mais interessantes da música de jazz – o chamado movimento jazz-rock fusion, geralmente personificado por Miles Davies – com os seus famosos quartetos.
Aluno do Berklee College of Music no início dos anos 60, foi aí depois professor, reitor e finalmente Vice-Presidente Executivo até à sua (recente) reforma. Mais informação aqui.
A lista de músicos com quem tocou ou toca constitui quase um directório da música e, sobretudo, do jazz moderno: George Shearing, Stan Getz, Carla Bley, Gato Barbieri, Keith Jarrett, Chick Corea, Steve Lacy,  Makoto Ozone, Herbie Hancock, B.B. King, Eberhard Weber, Stephane Grappelli,  e até o famoso compositor argentino Ástor Piazzolla, com quem produziu um dos discos mais absolutamente sublimes da história da música improvisada ocidental.
Pelas suas formações passou um número impressionante de músicos que com ele debutaram (Larry Coryell, Pat Metheny, por exemplo), e se vieram depois também a notabilizar.
Uma figura de referência incontornável da música, como disse. E é-o precisamente porque... está longe de ser mediana e, sobretudo, porque arriscou.

Pena o Miguel Esteves Cardoso mostrar não saber isto e ter feito este comentário tão leviano e deselegante a propósito de um músico notável. Ao contrário dos jornais, da guerra e do amor, na música não vale tudo...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Há vida para além do PEC

A música não vai salvar o mundo, mas pode ajudar. O projecto da Orquestra Geração é uma iniciativa da Fundação Gulbenkian e da Câmara da Amadora, apoiado na Escola de Música do Conservatório Nacional e na Fundação EDP. Já conta, creio, dois anos. A inspiração vem do conhecido Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis venezuelano, fundado por José António Abreu.
É justo dizer que no domínio da aplicação dos princípios da inclusão social e da aprendizagem do trabalho cooperativo através da música, as bandas filarmónicas, em particular -- de uma forma, por vezes, voluntarista e sempre totalmente desapoiada-- e as escolas Menuhin, vêm de há muito dando um contributo decisivo nesta matéria. Mas, estas Orquestras Geração constituem um caso de sucesso, hoje e aqui, que contém lições que ultrapassam em muito o domínio das artes.
Se o País quisesse mesmo perceber o que tem de fazer para conseguir ir além do sacrossanto PEC -- que lá ficou naturalmente aquém do que se esperava e do que seria necesssário -- bastaria atentar nos princípios e nos resultdos destas Orquestras Geração. Está lá tudo para quem quiser entender. Tudo!
Eu aconselharia os governantes (incluíndo a pianista Gabriela Canavilhas), os opinadores, políticos e para-políticos paralíticos deste país a atentarem melhor nestes exemplos que estão mesmo debaixo dos nossos narizes e a inspirarem-se neles para fazer qualquer coisa de verdadeiramente útil pelo país.
Portugal entendido como uma orquestra de gerações para combater a exclusão social, valorizar o contributo de todos e de cada um e responsabilizá-o por isso, ensinar as virtudes do trabalho cooperativo e a necessidade de regras colectivas para atingir um fim maior?
Dá trabalho, exige criatividade e paciência, mas vão lá ouvir estes miúdos que eles ensinam-lhes como é...

PS: Uma magnífica reportagem sobre este projecto, de autoria de José Carlos Barreto e José Félix Pereira, foi para o ar na TSF. Pode ser ouvida aqui e vista aqui. A não perder!