sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

“Novo” aeroporto, velhos problemas

A Câmara de Benavente, seguindo movimentos públicos que também já há tempo se tinham manifestado sobre este assunto, ameaça impugnar a localização do novo aeroporto de Alcochete, justificando a inciativa, sobretudo, com os graves problemas de ruído que a prevista localização vai causar na zona da minha freguesia de Santo Estevão.
Não posso estar mais ao lado da iniciativa da CMB. O potencial do problema do ruído do novo aeroporto é real. Depois de décadas de experiência com outros aeroportos, depois de centenas de estudos que revelaram as trágicas consequências que o desprezo por esta matéria originou, ficamos sem saber se as opções que agora se perfilam no horizonte são fruto do golpismo, da falta de sensibilidade e cultura ambientais, ou,  simplesmente, da imbecilidade dos responsáveis. Em qualquer caso, serão sempre razões demasiadamente tristes para que não reajamos com grande veemência.

O “novo” aeroporto de Lisboa é um mistério (mais um!) que seria interessante, nestes tempos de crise, esclarecer...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

“Os Alfarrabistas”


Poesia nas ondas da rádio... “Os Alfarrabistas” de Fernando Alves, com sonoplastia de Mésicles Helin. Na TSF. A série inclui vários programas que pode pesquisar no site da estação.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Terry Riley, uma pérola em Portugal

O compositor americano Terry Riley é um nome que dispensa (ou deveria dispensar) apresentações. Em Portugal o trabalho deste influente  compositor, agora com 75 anos, passou quase totalmente à despecebido (a única excepção parece-me ter sido a sua visita a Lisboa em 1995 para um concerto memorável no S. Luís, felizmente registado em CD.) 
Podemos, no entanto, dar graças pelo facto de que o desinteresse luso se afigura não ter beliscado o prestígio e a carreira magnífica deste compositor. E Terry Riley há-de certamente estar grato aos portugueses por não ter, assim, sido particularmente prejudicado pela indiferença nacional...
No blog vizinho destes “Fragmentos” encontrarão algo sobre o concerto em si.  Aqui limitar-me-ei a dizer que foi pena assistir a este magnífico evento, numa sala cuja lotação oficial é de 899 lugares, na companhia de menos de 90 pessoas. Ainda por cima, destas menos de 90 pessoas, algumas ainda saíram a meio, certamente por forma a não perturbar com o seu enfado os que ficaram. 
Louve-se-lhes a intenção...



PS- Acabo de saber que a New Albion (a editora que publicou o Lisbon Concert) acabou a sua actividade. Agora só é possível ouvir o Lisbon Concert em mp3... Estou em estado de choque!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Cascais, qualidade de vida e artilharia

Um dia destes, há pouco tempo, de passagem pela minha terra natal, ouvi aquilo que me pareceu um ataque de uma brigada de artilharia pesada. Não seria de admirar porque Cascais foi sede de um regimento de artilharia anti-aérea. Mas, algo me pareceu estranho uma vez que o dito regimento foi desactivado há bastantes anos e a artilharia não dispara assim... 
Fui ver. 
Aproximei-me da “peça” que bombardeava a outrora pacata vila com todo aquele fogo de barragem. O fragor prenunciava batalha sem quartel... 
Era afinal um ensaio de som —um sound check como dizem os peritos nestas coisas...— que decorria no palco das Festas de Cascais. O meu pequeno, mas, ainda assim, bastante preciso sonómetro marcava num instante de maior alívio dos ouvidos —enquanto eu preparava o meu equipamento a banda tinha optado por ensaiar o seu momento unplugged...— 99.2 dB, como a foto mostra. 
O assunto não mereceria grande reportagem se o dito ensaio de som estivesse a decorrer numa daquelas câmaras com grossas paredes duplas de betão, enterradas no subsolo a várias centenas de metros, isoladas da civilização e destinadas a conter explosões nucleares. 
Mas, não! O palco onde tudo isto decorria situava-se não longe do gabinete do senhor presidente da edilidade, mesmo em frente de um dos maiores hotéis da zona —certamente para enorme gáudio dos turistas que lhe ocupavam na altura os quartos e tivessem arriscado um momento de descanso...— e no meio de muitos outros estabelecimentos de restauração e numerosas  residências. 
Bem lá no meio (!), no local onde o gigantesco palco estava encafuado, havia ainda uns pequenos quiosques de venda de souvenirs. Um desses quiosques ficava mesmo ali à “boca de cena”. Está tapado pelo sonómetro na foto.
Os vendedores trabalhavam com os dedos espetados nos ouvidos. Os clientes, em vez de souvenirs, levavam marteladas dolorosas nos seus frágeis tímpanos enquanto reclamavam, gritando em vão de goela escancarada, que só queriam colares de conchinhas. Vá-se lá, de facto, perceber estes turistas...
Imagino a cadeira do senhor presidente da câmara, e certamente o próprio senhor presidente Capucho, dando um quase imperceptível salto a cada um dos pequenos  sismos provocados por aquela vibração ritmada provinda do palco das Festas de Cascais. Vibração essa logo  transmitida a todo o Largo da Câmara e edifícios em redor de modo a que ninguém ficasse indiferente. O pior, de facto, é a indiferença. 

Cascais muito à frente!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Mas vamos ter submarinos, caraças!

Um "contexto de contenção orçamental e de redução da despesa pública" foi a justificação arranjada pelo Ministério da Educação para congelar as verbas atribuídas ao ensino da música, no âmbito do chamado ensino artístico.
Trata-se de uma manobra feia, feita, como alguém me apontou, assim, pela calada do verão, que apanha toda a gente de surpresa e em contraciclo daquilo que tinha sido a orientação do ME. Nesta onda de disparar em todas as direcções e atacar os mais vulneráveis, os ataques também chegam à pobre da música que fica assim mais pobre ainda...
A medida é tomada numa altura que não permite às escolas honrar compromissos assumidos em tempo oportuno, prejudicando essas escolas, os seus professores e alunos. E suspeito que, no caso dos professores, os mais prejudicados serão justamente os jovens licenciados que buscam uma oportunidade de se "inserir no mercado de trabalho", justamente aqueles por quem os responsáveis vertem lágrimas cínicas a toda a hora e que dizem querer proteger.
É significativo que esta medida seja tomada pelo Ministério da Educação numa altura em que uma, digamos, escritora detém a pasta, e em que temos como Ministra da Cultura, digamos, uma pianista. Diz bem do peso que elas, a educação e a cultura terão no Conselho de Ministros e diz bem do peso que para estas ministras tem o ensino artístico. Cultura e ensino, são, como fica amplamente demonstrado para quem ainda tinha dúvidas, conceitos descartáveis.

Não pode esta medida deixar de suscitar a todos nós o mais vivo repúdio!

A rádio e os dias que correm



Deixe-me ajudá-lo a “descodificar” a foto. Ia eu a caminho do supermercado, esta manhã, aqui na minha terra, e dou com esta cena: à porta de casa, aproveitando a sombra temporária, este senhor vai gozando, com a tranquilidade que a foto pretende documentar, a frescura da manhã. Tem um pequeno rádio pousado em cima da perna (ora repare; a foto foi feita a alguma distância para não perturbar muito a dita cena.) 
Quem diz que a rádio morreu devia ter passado por aqui hoje. Para além de outras múltiplas funções, aqui está estoutra, quiçá inusitada, que a rádio cumpria de forma surpreendente, mas exemplar: banda sonora para um ensaio sobre a placidez.
Praticamente não se ouvia (se calhar, nem ele...), mas, na altura, a canção que passava era “My favorite things”. Cantada pela Julie Andrews, mas podia estar a ser cantada por outro qualquer, incluindo o próprio senhor da foto. 

Não haveria, por certo, outra canção que melhor pudesse ilustrar o sentimento que parecia transparecer do seu olhar, quando por ele passei. 

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O pingo


”Encontros com o Património” é um esplêndido programa da TSF. Aconselho-o a quem porventura o não conheça. Uma das suas edições é dedicada à obra do arquitecto Raul Lino. Dá-se uma volta pela sua Casa do Cipreste em Sintra, de onde a emissão é feita.
Fala-se do arquitecto, do grande e infatigável desenhador. Fala-se do desenho e do seu valor como “instrumento para ver”. Mas é o ouvido que aqui percorre os recantos da Casa do Cipreste, é o ouvido que recria as suas formas, que “vê” as cores dos seus azulejos, é o ouvido que vai desenrolando a sua planta.
O sino dá o sinal de entrada na Casa. 
De súbito, um pingo! Da pequena fonte há “uma água que cai”. “Uma influência árabe” para quebrar o silêncio, diz o sobrinho de Lino, anfitrião da emissão e actual morador. Ou, se calhar, para minorar a solidão, diz o autor do programa. 

Em qualquer caso, uma pequena fonte concebida pelo arquitecto para “ter um ruído na casa”.

sábado, 31 de julho de 2010

O pecado

”No dia em que comerdes este fruto, nesse dia, morrereis”. Dizia, em alusão ao mito do pecado original, o personagem da Morte numa das falas de O Lavrador da Boémia de Johannes Von Saaz. O texto esteve na origem do espetáculo Letra M. Lembrei-me desta fala ontem durante o concerto magnífico que o duo Le Celesti Harmonie deu na Igreja dos Salesianos. O ambiente era favorável a estes pensamentos...
De facto, o prazer de ouvir Paolo Pandolfo e Guido Balestracci afigura-se tão grande que é um sentimento de pecado que nos parece invadir. Um pecado duplo, o nosso, cometido ali à frente de todos (e numa igreja ainda por cima!), e o do duo, que também não esconde o prazer que tem em partilhar connosco estas celestes harmonias. 
Harmonias forjadas por François Couperin, M. de Sainte-Colombe, Captain Tobias Hume e Christoph Schaffrath, entre outros,  oferecidas por Le Celesti Harmonie para deleite e prolongada satisfação dos nossos sentidos. Numa demonstração cabal de que é totalmente verdadeira a frase de Hubert Le Blanc: “só há uma coisa mais maravilhosa do que escutar uma viola da gamba: é escutar duas.”

O fruto está comido! 

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ser dobrado pelos sinos

O tema do ruído não chega amiúde aos orgãos de comunicação. E quando chega é normalmente através de uma perspectiva desinteressante e mal informada.
Os sinos das igrejas são um problema recorrente (1). Os sinos constituem aliás um tema que ultrapassa (2) a questão ambiental —e talvez por isso o transforme num problema recorrente— e envolve disputas de poder com contornos bem mais profundos. Enquanto o problema do ruído se resumir à questão dos “decibéis (quando é que raio as pessoas entendem que esta palavra não existe?! Vejam aqui e aqui...) os prevaricadores estarão sempre defendidos.
É o caso relatado neste artigo do Público que foi retomado numa interessante crónica chamada “Música Electrónica” do Miguel Esteves Cardoso no mesmo jornal.
Enquanto o cónego Aparício “aguarda uma peritagem” e o presidente da Câmara de Beja “dá conhecimento à Igreja do mal-estar” que os sinos provocam, as vítimas vão dobrando com os nervos esfrangalhados. 


(1) Aqui há tempos escrevi algo sobre uma variante deste problema, assente quiçá no conceito das “novas tecnologias”: os chamados “sinos electrónicos”.
(2) Um estudo clássico sobre os sinos é este Les Cloches de la Terre de Alain Corbin, traduzido em inglês com o título Village Bells.


Foto de Rui Simão a quem agradeço.

domingo, 4 de julho de 2010

A música como ruído

Cheguei há pouco tempo de Koli (Finlândia) onde fui assisitr à conferência anual do World Forum of Acoustic Ecology. Escrevi algo sobre isso aqui
O tema da conferência foi “Ideologies and Ethics in the Uses and Abuses of Sound”. 
Nem de propósito, Miguel Esteves Cardoso escreve hoje no Público sobre a instalação de sistemas sonoros nas praias, difundindo música (se calhar, sem sequer pagar os respectivos direitos) em altos berros, em locais cuja paisagem sonora costumava ser feita do “som das ondas ou o alarido das crianças”. 
Insurge-se com razão. É um tiro na música e o direito ao sossego ao fundo.
Miguel Esteves Cardoso sugere ainda algo que deveria, de facto, ser norma: a atribuição da Bandeira Azul passaria  também a contemplar a poluição sonora. Usar sistemas deste tipo em praias que são usofruto de todos é uma atitude abusiva, sem ética, à qual está subjacente uma ideologia totalitária que entende que tudo se pode manipular, atropelar ou controlar, até o nosso direito ao silêncio.

Comissão da Bandeira Azul: não deixem que a Música se transforme em coliforme fecal!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

“O silêncio dos dias”

Uma reportagem de Maria Augusta Casaca e João Félix Pereira publicada na TSF debruça-se sobre o mundo sem som dos deficientes auditivos. A rádio a falar da sua matéria plástica básica: o som. Um projecto da Escola de Santo António de Faro tenta ajudar a ultrapassar a deficência. Comovente.

Pode ser ouvido (e deve ser ouvido!) aqui.

domingo, 25 de abril de 2010

O exemplo de Alcoutim

O presidente da Câmara Municipal de Alcoutim é médico e isso pode, em parte, explicar a razão que levou aquela câmara a decidir criar um inovador Programa de Erradicação da Surdez. A audição é um elemento chave no nosso relacionamento com o mundo que nos rodeia. Muita da nossa “humanidade” virá do facto de termos desenvolvido estratégias  surpreendentemente complexas de sobrevivência, ao longo do nosso processo evolutivo como espécie, assentes no mecanismo da audição. A fala e a música, são traços definidores do nosso processo filogenético, que assentam na evolução do nosso mecanismo auditivo.
Há qualquer coisa de bárbaro em condenarmos hoje pela incúria das instituições sociais, ou deixarmo-nos condenar a nós próprios a um processo, muitas vezes, precoce de ensurdecimento, ou deixarmo-nos vencer por uma noção totalmente descabida de que é “natural” ficar surdo.
Para mim que sou músico este problema é especialmente agudo. 
Uma perda temporária de audição, por exemplo, pode ser um bom remédio para percebermos a importância vital deste sentido. Já me aconteceu e, digo-vos sem rodeios, é uma experiência profundamente traumática (ver aquiaqui e aqui) que não se deseja repetir...
Hoje “os velhotes sorriem em Alcoutim,” e já não têm medo dos sons que reaprenderam a ouvir, segundo uma reportagem da TSF. “As pessoas, os velhotes nomeadamente, acham que é natural ficar surdo e como tal há um isolamento dentro da própria habitação, as pessoas não vêem televisão, não conversam umas com as outras porque acham que não há nada a fazer,” diz o Presidente da Câmara de Alcoutim.
Terá o doutor Francisco Amaral percebido isto pela sua formação profissional, será mais sensível a este problema por qualquer razão pessoal ou por qualquer traço especial da sua personalidade. 

O certo é que a Câmara de Alcoutim e este Programa de Erradicação da Surdez constituem exemplos que não podem deixar de ser destacados.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Há som no ar

Mão amiga chamou-me a atenção para um site da Antena 2 chamado Somdescape (uma corruptela da palavra soundscape, como explica o seu autor.) Um título que chama a atenção para a paisagem sonora que, se estivermos atentos, traduz fielmente os valores que estão subjacentes aos organismos que a produzem e a ouvem. 
O título revela as ambiguidades da audição. Diz-nos que podemos estar a falar de sons dos escapes, o que é mau; ou do som como forma de escapar à ditadura da paisagem sonora pré-formatada que hoje nos é servida por todo o lado, o que é bom.
O programa foi (está a ir?) para o ar e eu, mea culpa, nem dei por isso.
De qualquer forma, é de saudar que neste país de surdos ainda haja quem teime em ouvir, e quem, ainda por cima, dê à crónica os produtos da sua audição. E quem acolha isso... 
A Antena 2, embora se calhar, não se dê disso conta, também faz parte da paisagem sonora e tem enormes responsabilidades nessa matéria. Se tivesse, ela própria, ouvido antes o que se passa à sua volta, tinha percebido que já há muito que se “fonografa” a paisagem sonora portuguesa e o Somdescape seria então, desde há muito, uma regra, e não uma excepção.

Ouvir, como escrevi aqui algures, não vai curar o mundo, mas ajuda. O Pedro Coelho dá aqui, seguramente, a sua contribuição.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os 25 anos da Miso Music

A Miso Music comemora este ano o seu 25º aniversário. No âmbito desta comemoração (cf. o programa da comemoração aqui) houve hoje um concerto no Instituto Franco-Português a que o Miguel e a Paula Azguime deram o nome de “Cadavre Exquis” Electroacústico.
O Miguel teve a bondade de me convidar para conceber uma peça para este Cadavre Exquis musical, à maneira surrealista, que foi estreado com sucesso. Foi para mim um enorme prazer, confesso-o, colaborar nesta iniciativa. 
A minha foi uma das 50 peças apresentadas, fruto do trabalho de outros tantos compositores, distinguidos desta forma pela sua colaboração com a Miso ao longo destes 25 anos.
Ouvindo todos estes trabalhos, observando o rigor e o esforço colocados na produção deste evento, a sua qualidade, a dedicação e o altíssimo grau de profissionalismo de toda a equipa de produção da Miso Music, o espírito empreendedor e o quente acolhimento dispensado a todos, autores e público, olhando para o palmarés invejável desta instituição, tendo, enfim, em conta as condições disfrutadas para a realização das suas actividades, sinto o dever de expressar  publicamente o meu apreço e admiração a todos eles. 
Por escrito, para que conste.
Imagino o que seria se o talento, a capacidade empreendedora, a capacidade de projectar e de empolgar (dentro e fora da instituição), a dedicação, o profissionalismo e o rigor que a Miso Music, os seus mentores e a sua equipa, colocam nas suas iniciativas encontrasse, mesmo que só parcialmente, co-organizadores à altura. Que pudessem ajudar a levar aos limites extremos da sua capacidade uma actividade que, sendo vítima de dificuldades por si incontroláveis, mas fazendo o impossível, fica, infelizmente para o País, pelos limites do possível.

Em Portugal, os governantes e as luminárias do costume enchem muitas vezes o discurso com clichés abstractos sobre as linhas definidoras do futuro, que carecem, contudo, aos olhos do cidadão, de contraprova real e palpável que ajude a dar substância ao discurso generalista e tantas vezes, bem lá no fundo, oco. Pois bem, querem prova real de produtividade, de excelência, de rigor e de poder de iniciativa? Olhem então com seriedade para o exemplo da Miso Music. E apliquem-no.

terça-feira, 16 de março de 2010

Leviandades

Ainda há pouco tempo fiz aqui um elogio a um escrito de Miguel Esteves Cardoso, que me pareceu totalmente justo. Trata-se de um jornalista que gosta de arriscar (reconheço-lhe essa virtude), mas que é embrulhado, ele também, tantas  vezes, nesta vertigem de ter de preencher diariamente o seu pequeno canto de página. Ontem espalhou-se. 
E por se tratar de uma injustiça cometida sobre uma figura que conheço bem e que é tratada de forma totalmente lamentável, não posso deixar de escrever aqui esta nota.
O pretexto da crónica de ontem do Público foi o gosto musical dos candidatos à presidência do PSD. Lá foi de metáfora musical, em metáfora musical até chegar a Gary Burton, dizendo dele que se trata de um talento “mediano que poderia ter sido maior se arriscasse mais.”
Saltou-me a tampa quando li isto! O Gary Burton não merece a colagem ao Aguiar Branco, simplesmente para levar uma duvidosa lógica musical até ao fim, 
Gary Burton é um músico que acompanho há uns quarenta anos. Por causa dele acabei a tocar vibrafone também. É um dos músicos mais respeitados do jazz, com uma carreira que se estende há quase 50 anos, pedagogo, improvisador perfeito, um inovador notável da técnica do seu instrumento (é conhecido o Burton grip), uma referência incontornável neste domínio, e um vanguardista, que como ele próprio lembrava, timidamente, numa entrevista que li, antecipou um dos movimentos mais interessantes da música de jazz – o chamado movimento jazz-rock fusion, geralmente personificado por Miles Davies – com os seus famosos quartetos.
Aluno do Berklee College of Music no início dos anos 60, foi aí depois professor, reitor e finalmente Vice-Presidente Executivo até à sua (recente) reforma. Mais informação aqui.
A lista de músicos com quem tocou ou toca constitui quase um directório da música e, sobretudo, do jazz moderno: George Shearing, Stan Getz, Carla Bley, Gato Barbieri, Keith Jarrett, Chick Corea, Steve Lacy,  Makoto Ozone, Herbie Hancock, B.B. King, Eberhard Weber, Stephane Grappelli,  e até o famoso compositor argentino Ástor Piazzolla, com quem produziu um dos discos mais absolutamente sublimes da história da música improvisada ocidental.
Pelas suas formações passou um número impressionante de músicos que com ele debutaram (Larry Coryell, Pat Metheny, por exemplo), e se vieram depois também a notabilizar.
Uma figura de referência incontornável da música, como disse. E é-o precisamente porque... está longe de ser mediana e, sobretudo, porque arriscou.

Pena o Miguel Esteves Cardoso mostrar não saber isto e ter feito este comentário tão leviano e deselegante a propósito de um músico notável. Ao contrário dos jornais, da guerra e do amor, na música não vale tudo...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Há vida para além do PEC

A música não vai salvar o mundo, mas pode ajudar. O projecto da Orquestra Geração é uma iniciativa da Fundação Gulbenkian e da Câmara da Amadora, apoiado na Escola de Música do Conservatório Nacional e na Fundação EDP. Já conta, creio, dois anos. A inspiração vem do conhecido Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis venezuelano, fundado por José António Abreu.
É justo dizer que no domínio da aplicação dos princípios da inclusão social e da aprendizagem do trabalho cooperativo através da música, as bandas filarmónicas, em particular -- de uma forma, por vezes, voluntarista e sempre totalmente desapoiada-- e as escolas Menuhin, vêm de há muito dando um contributo decisivo nesta matéria. Mas, estas Orquestras Geração constituem um caso de sucesso, hoje e aqui, que contém lições que ultrapassam em muito o domínio das artes.
Se o País quisesse mesmo perceber o que tem de fazer para conseguir ir além do sacrossanto PEC -- que lá ficou naturalmente aquém do que se esperava e do que seria necesssário -- bastaria atentar nos princípios e nos resultdos destas Orquestras Geração. Está lá tudo para quem quiser entender. Tudo!
Eu aconselharia os governantes (incluíndo a pianista Gabriela Canavilhas), os opinadores, políticos e para-políticos paralíticos deste país a atentarem melhor nestes exemplos que estão mesmo debaixo dos nossos narizes e a inspirarem-se neles para fazer qualquer coisa de verdadeiramente útil pelo país.
Portugal entendido como uma orquestra de gerações para combater a exclusão social, valorizar o contributo de todos e de cada um e responsabilizá-o por isso, ensinar as virtudes do trabalho cooperativo e a necessidade de regras colectivas para atingir um fim maior?
Dá trabalho, exige criatividade e paciência, mas vão lá ouvir estes miúdos que eles ensinam-lhes como é...

PS: Uma magnífica reportagem sobre este projecto, de autoria de José Carlos Barreto e José Félix Pereira, foi para o ar na TSF. Pode ser ouvida aqui e vista aqui. A não perder!




segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lisboa, ruído a mais, ruído...

Um artigo recente do Público “Ruído na Baixa pode travar repovoamento” dava conta do atraso na aprovação do plano de pormenor da baixa pombalina pela administração central “por causa das questões relacionadas com o ruído.”
O atraso fica a dever-se ao facto de a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo ter emitido um primeiro parecer sobre o plano da autarquia onde a questão do ruído é objecto de reparos. No quadro actual, a construção de novas habitações e escolas está posta em causa estando pois, assim também, em causa o desejado repovoamento do centro da cidade.
As várias medidas de condicionamento do trânsito (apontado como a fonte principal de ruído da cidade) não parecem suficientes e há zonas da Baixa onde “foram detectados níveis de ruído susceptíveis de causar danos na saúde e fortes perturbações do sono.”
Que Lisboa é uma cidade barulhenta é um facto inequívoco, susceptível de ser comprovado por qualquer um. Mas, que  “repovoamento” implica a alteração da paisagem sonora lisboeta parece também um dado inequívoco. 
Num tempo em que já se “desenha” o som dos motores dos automóveis, não me parece suficiente alterar as carreiras de alguns autocarros ou repavimentar algumas ruas. É útil, mas não é de todo suficiente. É o conceito de conforto acústico (e térmico), é a multiplicação de “santuários” de silêncio, o redesenhar dos sinais sonoros, a preservação do património sonoro da cidade e a sua divulgação e valorização, o cumprimento das normas ambientais no que respeita a ruído de vizinhança, é a humanização, enfim, da paisagem sonora lisboeta no seu todo que está em causa. É a entrada deste problema, de facto e a sério, na agenda da autarquia que se exige.
As autoridades municiapais lisboetas não levam a sério o problema do ruído da cidade. Ainda não perceberam que este problema não se resolve com medidas avulsas, de circunstância ou de fachada, e que os lisboetas valorizam mesmo um ambiente sonoro saudável. 

Já alguém escutou a voz dos lisboetas nesta matéria? Também é verdade que no meio desta barulheira ninguém ia conseguir ouvir a voz de ninguém...