segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A poesia do aço contra a força de Hades

João Vieira

Estreou no passado dia 7 mais uma produção do Teatro da Rainha, companhia com a qual colaboro vai para 30 anos. A nova peça intitula-se “Letra M” e baseia-se num texto de há cerca de 600 anos, chamado “O Lavrador da Boémia” de autoria de Johannes Von Saatz. O texto, escrito após a morte da mulher do autor, é um extenso e esmagador diálogo entre um Lavrador e a Morte. A perda da mulher leva o Lavrador a desafiar a Morte, exigindo-lhe explicações. O que poderá alguma vez justificar a dor que lhe foi por ela causada? Como escreve, numa nota sobre o espectáculo, o encenador e meu especial amigo Fernando Mora Ramos, trata-se de uma reflexão em forma de diálogo “sobre um desejo de eternidade utópico que persegue o homem desde os primórdios da razão.”

No confronto entre a Morte e o Lavrador, sou manifestamente seduzido pela Morte. A sua postura, o carácter implacável e a natureza irrefutável dos seus argumentos seduzem-me bem mais que a lamechice do Lavrador, “figura tacanha”, como lhe chama a Morte a certa altura, durante o confronto.

Contudo eu sou o Lavrador, tornei-me Lavrador, sou forçado a fazer as mesmas perguntas à Morte. Quis o acaso que me visse na condição deste Lavrador frágil e vulnerável durante a produção desta peça. Um lavrador feito Orfeu, que desceu e continua a descer ao reino de Hades em busca da sua Eurídice, na ilusão de que a poderá ainda trazer de volta. Um lavrador-Orfeu a tentar com diligência adormecer Hades, Caronte e Cérbero sem sucesso. Um lavrador-Orfeu que desafia, também ele, as proibições e olha para trás. Nada mais parece restar senão a memória. Mas, nada: a serpente deu mesmo um golpe fatal na minha bela Eurídice.

Entre as minhas idas e vindas ao domínio de Hades tentei encontrar ânimo para sonificar esta “Letra M”.

The show must go on e a tarefa é ingrata. Hades não se comove, Caronte não adormece e Cérbero continua atento ao meu mais simples gesto. Tentam mesmo apanhar-me nos seus conluios. São insensíveis à sedução do meu design sonoro. Não teria conseguido se não fosse a ajuda, o apoio, o estoicismo, da equipa deste "Letra M", que me acompanhou sempre.

Valho-me do cenário. O cenário do João Vieira — também ele transformado em passageiro de Caronte  durante a produção da peça — é uma máquina sonora poderosa, de valor musical inegável. Uma máquina sonora talvez improvável, certamente inusitada. A fazer lembrar, visual e acusticamente, as conhecidas estruturas sonoras dos irmãos Baschet.

Hades volta a intrometer-se quando penso por que outros caminhos este trabalho poderia ter-se metido. Estou certo que o João Vieira haveria de ter simpatizado com a ideia de os percorrermos juntos.

O som deste cenário de aço está presente, de uma forma ou de outra, de modo mais ou menos exuberante e exclusivo, em todas as intervenções sonoras que a peça contém.

Proponho ao espectador o desafio de perceber onde começa e onde acaba o cenário desta “Letra M”.  Uma extensão de João Vieira, situada, não se sabe bem, no espaço físico da acção ou no espaço virtual da quadrifonia sonora. Onde jazem as fronteiras entre o visual e o acústico?

No futuro, se Hades o permitir, iremos explorar as virtudes deste cenário feito de ferro, de aço e de poesia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Portugal de outra era (2)

Poucos dias depois de ter escrito o anterior post sobre a atenção dada ao problema do ruído pelos responsáveis, eis que surge um caso reportado nos jornais, como que a dizer-me "Afinal nem tudo está tão mau como parece!"
O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) condenou a vizinha barulhenta de um casal, que vivia com os dois filhos num apartamento em Lisboa, a 25 000 euros de indemnização por violação do direito ao descanso. O processo arrastava-se desde 2002 e a decisão é considerada "pouco comum".
O caso tem todos os ingredientes típicos destas situações de conflito entre vizinhos por causa do ruído. Um morador de um prédio produz ruído que impede a vida normal dos outros vizinhos, estes queixam-se, as queixas motivam retaliações por parte do prevaricador, as acções, avaliações e reclamações sucedem-se, nada se resolve, e a vida torna-se num autêntico inferno.
Normalmente, nestes casos as vítimas recorrem aos organismos que lidam directamente com esta matéria: câmaras municipais, polícias, departamentos do estado ligados ao ambiente, etc., num calvário que resulta de uma continuada pulverização de competências que mata à nascença qualquer desejo de resolver este problema.
Apesar de a lei ser bastante detalhada, a resposta é, na grande maioria dos casos, ineficaz. Esta ineficácia do Estado, o desgaste mental, físico e até financeiro, prolongado de forma insuportável no tempo, que este tipo de situações provoca, o sentimento de impotência que assalta as vítimas e a impunidade de que gozam inexplicavelmente os agresssores, levam a que os conflitos provocados pelo ruído de vizinhança terminem sem sanção dos prevaricadores.
As vítimas, essas, acabam em psicólogos, totalmente destroçadas, e perante o enredo montado decidem muitas vezes ir em busca da vida ambientalmente equilibrada a que têm direito noutras paragens.
Como se fossem eles, no final, os agressores... Na prática, acabam eles por ser condenados.
Neste caso, as vítimas decidiram corajosamente recorrer logo aos tribunais. O processo percorreu todas as instâncias, tendo sido decidido a favor das vítimas em todas elas. As decisões foram sendo objecto de recurso por parte da agressora, até à sentença do Supremo.
Uma das causas principais para a ineficiência do Estado é a dependência absurda de critérios técnicos e "legalistas" para avaliar situações que são muitas vezes do senso comum. O fantasma do decibel paira sobre as reclamações de ruído, como se esta unidade fosse o princípio e o fim de qualquer ambiente sonoro desejavelmente equilibrado e sadio.
Ora, uma das novidades da sentença do STJ é a dispensa de medições. Entenderam os juizes (e bem!) que o descanso é um direito que não se compagina com os ditames do sonómetro.
A qualidade da sentença é inequívoca. A justiça foi reposta. A observação dos juizes de que casos como estes dispensam medições complicadas e muitas vezes infrutíferas é exemplar e devia fazer parte do manual de procedimentos de qualquer entidade com atribuições nestas matérias.
Devia também servir de matriz de actuação aos responsáveis que, como dizia no post anterior, se refugiam em análises de natureza técnica e científica de qualidade e eficácia duvidosas para ir disfarçando a sua completa ignorância sobre estes assuntos e a sua total incompetência para lidar com matéria desta natureza.
Expedientes, infelizmente comuns, como os "mapas de ruído" do vereador Sá Fernandes, a que a vereadora Helena Roseta se referiu, são uma forma de ir encanando a perna à rã. Infelizmente, no melhor pano cai a nódoa...

Mas, afinal há gente viva na justiça portuguesa. Viva o STJ! 

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Portugal de outra era (1)

A vereadora Helena Roseta da CML criticou anteontem o facto de não haver um plano para combater o ruído na cidade. A crítica saúda-se e a preocupação pelo problema assinala-se.
Afinal ninguém liga nenhuma a este assunto. E, contudo, o problema do ruído continua a ser apontado como a disfunção ambiental número um (não só em Lisboa!). Helena Roseta revelou numa conferência de imprensa, onde apresentava os resultados de um estudo feito sobre o "repovoamento" da cidade com novos habitantes, que “há quem desista de morar na cidade por causa do excesso de barulho.” Roseta critica o vereador do pelouro porque anda a “apresentar o mapa do ruído da cidade há dois meses, mas não tem plano de acção.”
Repito: o alerta saúda-se e a preocupação assinala-se, mas tudo isto é escasso.
Quando, um dia, algum responsável político (seja a que nível for, local, regional ou central) for capaz de se debruçar sobre o problema do ruído, demonstrar sensibilidade e compreensão pelo que está em causa, apresentar um plano efectivo para tratar deste assunto e tiver capacidade para obter resultados, então sim, Portugal terá entrado numa nova era de modernidade, de verdadeira convivência democrática, será uma sociedade desenvolvida, onde prevalece o respeito pelos nossos valores comuns. Não a conversa bacoca dos ancestrais “heróis do mar”, mas algo de mais profundo, capaz de gerar os laços que podem fazer deste grupo de "galáticos" que é Portugal, uma equipa!
A solução do problema do ruído está nos antípodas de tudo o que é a prática política e social neste Portugal contemporâneo. Neste sentido, falar de "combate ao ruído excessivo" é alvejar um problema crucial,  paradigmático, que tem efeitos noutros aspectos da nossa vida colectiva. Tentar resolver o problema do ruído a sério, reflecte um novo olhar sobre o nosso mundo. Não parece, mas é...
O ruído não é um problema efémero. A solução das disfunções do ambiente sonoro não toleram improvisos de conjuntura, implica participação e um verdadeiro exercício democrático. Exige meios técnicos, jurídicos e financeiros, certamente, mas também sentido de responsabilidade, cultura do respeito, sensibilidade, visão abrangente, capacidade de criação de laços de solidariedade colectiva e, por tudo isto, autoridade para eliminar os mitos patetas que povoam a cabeça das pessoas sobre esta matéria. 
Actuar nesta área implica conhecer a fundo a natureza e a complexidade do problema. Implica saber do que se fala. Implica saber o que é ser humano. Não dá para improvisar e atamancar: mal a solução improvisada ou atamancada é implementada o problema volta de novo a surgir, ainda mais assanhado. As soluções levianas, concebidas para calar conjunturalmente as bocas das vítimas, custam caro a quem as tenta e são trágicas para que lhes tem que sofrer as consequências.
Ao escrever o parágrafo acima parece que estou a descrever um manual da prática política contemporânea...
Ora, um ambiente sonoro desequilibrado é intolerável. E atinge todos. Não é um problema sectorial que só diz respeito a um grupo específico. É como a mosca do poema do António Aleixo. Todos necessitamos de um ambiente sonoro equilibrado. As pessoas sentem-no, sobretudo, quando deixam de o poder disfrutar. 
Mas, o reequilíbrio do ambiente sonoro não é matéria (só) do foro da engenharia e da medicina, (só) do foro cultural, (só) do foro afectivo, ou (só) do foro da comunicação. É mais do que isso e exige atributos que os responsáveis políticos não têm.
Será que estão mesmo dispostos a resolver o problema?
Uma plano para reduzir o "excesso de ruído" é muito mais do que meia dúzia de slogans para ganhar mais uns votos. 

Querem saber uma coisa? O ruído é mesmo um problema e a sua solução é mesmo um desafio. Mas implica uma atitude perante todo o nosso ambiente envolvente totalmente nova. Tão simples quanto isto...

sábado, 27 de junho de 2009

Une voix trés humaine

O meu interesse pela viola da gamba tem-se intensificado desde há dois anos a esta parte. Desde que recebi a minha guitarviol —um parente afastado pode dizer-se— que tenho ouvido e estudado o instrumento com algum detalhe e ainda não perdi a esperança de vir a tocar uma viola da gamba genuina. Não vou competir com um Pandolfo, uma Hille Perl ou fazer sombra ao Fretworks, mas gostava de ter uma viola da gamba minha...

Este instrumento não tem grande tradição em Portugal e os concertos são relativamente raros. A visita de um grande executante é pois uma oportunidadee que não se pode perder, nem que isso implique uma viagem relativamente longa.

Para quem não conhece, digo-lhe que a nave do Igreja do Mosteiro de Alcobaça tem para cima de 100 m de comprimento, 20 m de largura e 50 m de altura. Não quero exagerar, mas o tempo de reverberação deve exceder bem os 15 segundos. Tudo parece grandioso neste espaço.
Imaginem agora o pequeno foco sonoro, colocado sensivelmente a meio desta longa nave. 
Uma viola da gamba, esse instrumento delicado, dos espaços íntimos e das expressões sonoras subtis, a voix humaine que fez a delícia dos poderosos entre o século XVI e o século XVIII, mais coisa menos coisa. A viola da gamba foi desaparecendo da paleta instrumental dos compositores à medida que os espaços de concerto foram crescendo, ou o sentido da audição dos junkies da música foi necessitando de estimulantes sonoros cada vez mais poderosos. Um instrumento que fugiu dos espaços nobres da música, mas que, graças a um movimento de revivalismo que começou no século passado, conhece hoje uma popularidade crescente e um interessse renovado pelas suas características únicas.

Imaginem, pois, por favor, esse instrumento subtil, que brilhava nos espaços íntimos dos salões dos poderosos, a soar hoje no espaço imenso da Igreja do Mosteiro de Alcobaça, tocada pelo mestre dos mestres, Jordi Savall, a percorrer, para nosso delírio, o reportório mais importante deste instrumento. Num contexto destes, posso-vos dizer que a viola da gamba parecia um instrumento vindo do Céu. E posso-vos garantir também que esta viola da gamba celeste foi pretexto involuntário para revisitar a minha origem mais remota...

Imaginem agora mais de 700 pessoas a assistir, atentas, a grande maioria delas constituída certamente por forasteiros atraídos por este último e singular evento do Cister Música - Festival de Música de Alcobaça. Pensem no que poderá ter feito rumar a Alcobaça toda aquela gente, para ouvir um instrumento que não deixou grande rasto na história da música portuguesa, mas que num daqueles delírios históricos que por vezes acontecem, acabou por ter alguma significado no Japão, a partir do século XVI por via portuguesa.

Há-de ser amor verdadeiro pela música!

Vá-se lá então perceber porque é que, pelo menos, estas mais de 700 pessoas não andam atrás do ministro, a fazer-lhe esperas em parques de estacionamento e a exigir-lhe explicações sobre as malfeitorias (confessadas!) que este governo tem feito na área da cultura; porque é que não desfilam na Avenida da Liberdade, empunhando cartazes e tarjas pretas; porque é que não fazem vigílias à porta de S. Bento ou outra qualquer iniciativa de luta, com mais boné ou mangueirada, manobras que têm belo efeito televisivo e são frequentemente usadas por quem se sente ou vê, de alguma forma, os seus interesses lesados por esta manhosa legislatura em que vivemos...? 


Deixemos as subtilezas para a viola da gamba...

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ruído em saldo

A propósito de ruído, ficámos a saber que o governo se prepara para diminuir o valor das coimas aplicadas a casos de infracção das normas ambientais. Exageradas ou mal calculadas, são algumas das justificações dadas para alterar o regime de coimas em vigor. O responsável governamental por esta área apressa-se a esclarecer que a “moratória” não tem nada a ver com o presente clima de crise financeira e económica.
Que mensagem estará então o Estado a passar às populações? Que corromper o ambiente (finalmente) compensa...? Que atentar contra o ambiente era difícil, mas agora é mais “simplex”?

No que respeita aos delicados mecanismos do ambiente sonoro já sabe: se tiver obras para fazer das 20 às 8 horas da manhã tem aqui a sua oportunidade de desgraçar, em definitivo e com desagravamento de custos, a vida dos seus vizinhos. Moer-lhes o juízo está agora em saldo. É aproveitar!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Decibéis? (2)

Ainda a questão dos “decibéis”...
Uma unidade é isto mesmo... UM! As unidades (metro, grama, ampere, newton, bel) são para todos os efeitos o equivalente a ... UM! As unidades têm o estatuto de um número. A expressão 10 m quer dizer “dez vezes 1 unidade que se convencionou chamar metro”. Tem de ser lida DEZ METRO. Não existe matematicamente tal coisa como “metros”. Como não existem “doises” ou “dezanóves”. É tão absurdo dizer “cinquenta decibéis” como seria dizer dois “doises” para referirmos 2x2.
Ignorar isto é triste, quando nos afirmamos “peritos” ou “consultores” em qualquer coisa. Deturpar isto e insistir na asneira, sobretudo se nos afirmamos “peritos” ou “consultores”, é bárbaro!
O ar pomposo e taxativo com que os diversos linguistas consultados trataram a dúvida que coloquei sobre os “decibéis”, tanto no caso do programa “Cuidado com a Língua” como no caso do Ciberdúvidas, só revela uma coisa: ignorância. 
Que é atrevida , como todos nós sabemos... 
Ai de mim que tinha dúvidas...