sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Decibéis? (1)

Numa edição recente do programa "Cuidado com a Língua" da RTP, um actor referiu várias vezes a palavra "decibéis". Sempre pensei que as unidades não tinham plural. Quando muito —quando muito!—o plural de decibel (unidade de medida em acústica, electrónica, etc) seria decibels, embora mesmo isto me cheire mal. Referi o caso à produção do programa. Quando ouço falar em “decibéis”, confesso, fico com arrepios.
Amavelmente, a produção do “Cuidado com a Língua” respondeu-me alertando para o facto de o Ciberdúvidas ter tratado duas vezes o tema. Como as respostas do Ciberdúvidas me suscitam sérias e legítimas dúvidas (sem ciber!) aqui deixo algumas considerações sobre o assunto. 
1) Não sou perito em Língua Portuguesa, mas sou utilizador da unidade "decibel" por profissão. Trabalhei na área do ruído muitos anos e, embora esteja afastado dessa matéria neste momento, como sou músico, o decibel continua, hoje como sempre, a cruzar-se com o meu quotidiano profissional. 
Sempre ouvi dizer que as unidades não têm género ou plural. Não se diz "uma" grama. Nem se devia dizer, de facto, em rigor, "dez gramas". A unidade é o grama (g). E o grama é uma unidade, não é um adjectivo ou um substantivo! É um número.
Mas, enfim, condescendo que soa um bocado esquisito dizer que uma coisa pesa “dez grama”. É, contudo, a forma correcta.
Quanto aos "decibéis", aí sim, a situação torna-se, na minha opinião, totalmente caricata. 
Deixem-me usar aqui alguma teoria... 
A unidade de que estamos a falar aqui é o bel. O bel é o logaritmo de uma razão entre os valores de duas 
variáveis. Na prática, o valor do bel é quase sempre um número enorme, cujo utilização não dá grande jeito. Daí 
dividir-se esse valor por dez, e daí o decibel, unidade que é usada na prática corrente. 
A unidade é portanto o bel (B). A tíltulo meramente exemplificativo, se não existisse esta convenção do decibel, teríamos de escrever do seguinte modo o Regulamento Geral do Ruído, no art. 4, Nº 3a: 
" As zonas sensíveis não podem ficar expostas a um nível sonoro contínuo equivalente, ponderado A, LAeq, do 
ruído ambiente exterior, superior a 550 B(A) no período diurno e 450 B(A) no período nocturno," em vez do que 
está escrito agora: 55 dB(A) e 45 dB(A). 
Pela lógica das respostas que o Ciberdúvidas deu,  advogando o uso de “decibéis” (assim mesmo, com acento agudo), ao ler aqueles valores  devíamos então dizer "quinhentos e cinquenta béis" e "quatrocentos e cinquenta béis", respectivamente. Um completo absurdo, como é fácil perceber. 
Nem sequer coincide com a forma correcta de referir o plural de outras palavras semelhantes como mel ou gel (por acaso há alguns anos coloquei essa dúvida ao Ciberdúvidas) que parece ser geles e meles. Ao menos então "decibeles"... 
Levando esta lógica por aí fora, a unidade de pressão pascal (Pa) deveria então ler-se no plural "pascáis", a unidade de força newton ler-se-ia "newtónes" e a unidade de indutância, o henry (H) teria talvez de ler-se "henries", assim em plural anglófono. Nada disto faz obviamente qualquer sentido. 
O que nos leva à questão do decibel cujo plural (se uma unidade, um, pudesse ter plural...) deveria então ser, quando muito  e pelas razões referidas, decibels. Se, como diz o Ciberdúvidas, "é sempre conveniente que se sigam as recomendações internacionais, pois estamos inseridos num espaço amplo de nações, e a univocidade facilita a comunicação entre os seus membros", devíamos então abolir esta prática dos "decibéis", que parece só existir neste Portugal avesso ao rigor científico e a esta confusão sobre o que é uma unidade de medida. 
2) Apesar deste horror ao rigor científico, a apropriação desta palavra "decibéis" como equivalente a "ruído", demonstra contudo uma preocupação pelo ambiente sonoro e uma sensibilidade ao problema do ruído que me parece interessante. Um sinal que coincide com a experiência que colhi durante o meu trabalho nesta área.
Ao inventar a palavra "decibéis", denotando "barulho a mais" ou a velha "chinfrineira", os portugueses demonstraram sensibilidade e capacidade de invenção. Admito, pois, sem grande problema, o uso corrente da palavra "decibéis" como sinónimo de barulho ou ruído em excesso. 

Já quanto a aceitar que se trate de uma forma legítima de introduzir o plural da unidade decibel no discurso científico e  técnico, aí tenho as minhas dúvidas. Desta vez, repito, sem ciber!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Por quem os sinos dobram


Há mais de 20 anos trabalhei no departamento de ruído da então Secretaria de Estado do Ambiente (S.E.A.). Uma das áreas que mais preocupações nos dava era a das reclamações. Não se tratava de nenhuma brincadeira: o ruído era a causa principal de reclamação dentro da SEA. As consequências desta disfunção ambiental podem ser extremamente sérias. Desde problemas gravíssimos de saúde até casos de tentativa de homicídio (consumado, num caso ocorrido na Amadora), passando por desavenças entre vizinhos (por vezes até entre familiares!) que acabavam em tribunal, houve de tudo um pouco.
Em dado momento começámos a receber um número crescente de reclamações relativas ao que foi classificado como "sinos electrónicos". O "sino electrónico" (descobri-o no terreno...) era um vulgaríssimo relógio de pêndulo, com um pequeno badalo, daqueles que se penduram na sala ou no corredor, que uns quantos espertalhões equipavam com um microfone barato, ligado a um amplificador, por sua vez ligado a uma dessas "cornetas" acústicas de feira. As "cornetas" eram montadas nas torres sineiras tradicionais, o relógio e o restante equipamento eram geralmente montados na sacristia. O preço de um sistema destes ultrapassava largamente o milhar de contos... 
R. Murray Schafer, o conhecido teórico da área da ecologia acústica e criador do conceito de "paisagem sonora", meu querido mestre e parceiro de aventuras sonoras, diz numa das suas obras que o espaço acústico de um sino de uma igreja tradicional definia a área da paróquia. Schafer fala também no sino como "som sagrado", um som tornado símbolo pelas suas características, mas também pela autoridade de quem tem o poder de o fazer soar. Mas, é Alain Corbin quem no livro Les Cloches de la Terre nos desvenda os complicados mecanismos que estão por detrás do campanário da igreja. Os sinos são efectivamente sinais de poder e de autoridade e elementos estruturadores do território. Foram pretexto para sérios confrontos locais entre o poder eclesiástico e o poder civil. Quem os faz soar tem o poder de silenciar os outros, sob o ponto de vista simbólico e real. O sino evoca respeito, mas pelas suas características físicas silencia efectivamente tudo à sua volta. É um factor fulcral na definição de pertença a uma determinada comunidade e, finalmente, ao marcar um território, a sua operação define as hierarquias dentro da comunidade que o habita. 
Ora, o "melhoramento" do "sino electrónico" procurava aparentemente subverter a ordem vigente ditada pelas relações de poder geradas no contexto da utilização do sino tradicional. O território alargava-se (o sino passou a ser ouvido nas paróquias vizinhas) e todos e ninguém o podiam faziam soar. No espírito de muitos, tratar-se-ia de uma conquista de Abril, portanto...
O que estes novos democratas esqueceram foi que o aumento do impacto sonoro do "sino electrónico", para chegar aos "territórios" vizinhos e assim satisfazer estes desejos "expansionistas" de subjugação dos vizinhos e de esmagamento por via "electrónica" de velhas rivalidades, iria começar por ter consequências perniciosas no seu próprio território e a suscitar desavenças dentro das suas próprias casas. Os efeitos dos sistemas pomposamente designados por "sinos electrónicos" são insuportáveis mesmo para os novos paroquianos com desejos expansionistas  e, afinal de contas, um "sino electrónico" não é, de facto, um sino. Tivemos um caso verdadeiramente caricato de um morador abastado que pagou um destes sistemas, mas acabou por levar a aldeia a tribunal porque não conseguia dormir e as tentativas para fazer desactivar o sistema, que ele próprio num primeiro impulso tinha pago e que o impediam a si e à sua família de dormir, foram totalmente infrutíferas... 
Não há, com efeito, nada de verdadeiramente único que materialize este "símbolo": o som é igual ao de todos os outros, e o "objecto" é agora um amontoado de fios e aparelhómetros de terceira categoria, guardados num armário de uma qualquer sacristia, longe de todos os olhares.
Fica apenas a capacidade (colectiva, agora expandida e não despicienda) de "democratizar" a marcação de um território e de poder silenciar os outros.
Vem isto tudo a propósito de um caso que agora anda aí nos jornais, ocorrido em Vilar de Perdizes onde foi instalado um destes sistemas. Pelo que pude constatar, trata-se de um sistema semelhante ao que descrevi acima. 
Como não podia deixar de ser, o "melhoramento" gerou uma série de reclamações --do próprio padre da paróquia, imagine-se!, o padre Fontes, promotor dos congressos de medicina popular. Mas, uma parte significativa da população opõe-se ao silenciamento do "sino" porque este mantém implicitamente a aludida capacidade de marcar território e silenciar os outros. Entre os argumentos explícitos a favor desta "guerra", uns invocam o prazer que lhes dá ouvir o toque da corneta acústica, outros saúdam o facto de, por serem analfabetos e não saberem ver as horas num relógio, poderem ouvir as horas de noite para tomar um remédio...
Esta capacidade de fazer soar estes novos "sinos" pode não ser, em si mesma, um factor negativo. Antigamente seria o pároco ou o regedor que teriam a chave do campanário e com ela a capacidade de fazer soar o sino. Agora será o povo que manda, ou tem a sensação que manda. O que me parece singular (e os sociólogos e antropólogos terão aqui uma palavra a dizer), e ilustra sem dúvida o que é este Portugal real em que vivemos, no ano de graça de 2008, é que se gere um conflito destas proporções porque há analfabetos que não sabem ver as horas num relógio e necessitam, portanto, das badaladas de um relógio público para poderem tomar um comprimido de noite, e gente sensível e de gosto educado a quem dá prazer ouvir a solenidade do toque das Avé-Marias através de uma corneta acústica manhosa, feita de lata. 
Bronze para que te quero! Glória a todos estes portugueses, que controlam agora o som sagrado, cuja religiosidade vibra ao som de um solene relógio da sala e por quem a corneta acústica dobrará a finados quando morrerem...


(a foto foi picada do blog "Ferrado de Cabrões")

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Serviço público


Por feliz coincidência, os membros da equipa que montava a aparelhagem e o palco para um espetáculo que ontem decorreu aqui em Benavente, no âmbito das festas locais de verão, dispunham de uma unidade de rastreio auditivo gratuito, mesmo junto ao seu “local de trabalho.” Não sei se  algum deles teve a coragem de ir verificar o estado dos seus ouvidos. Pelo que ouvi quando passei pelo local, cheira-me que não iriam ter boas novidades...
À semelhança do que se passa um pouco por todo o país nesta altura do ano, as festas desta pacata localidade transformam Benavente num completo pandemónio sonoro. 
Por escape ou para dar um sinal de “força”, este tipo de festas constitui uma verdadeira imundície sonora que deixa marcas indeléveis em quem nelas participa, por prazer, em trabalho, ou em quem, simplesmente, foi apanhado no cortejo.

Uma sugestão para o ano: aproveitem este tipo de unidades móveis de rastreio auditivo e promovam, por uma vez e a título experimental, a realização de um trabalho exaustivo junto das populações, antes e depois da “festa”. Transmitam-lhes  a mensagem. Expliquem-lhes depois os resultados e expliquem-lhes também o efeito fulminante que este tipo de exageros tem para a sua saúde. Seria uma dimensão interessante e diferente da festa e um verdadeiro serviço público...

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Turismo Infinito



De vez em quando temos a oportunidade de ver um daqueles espetáculos que nos agarram, sem um momento de abrandamento, sem quase termos tempo de respirar. Acontece. "Turismo Infinito" é uma produção do Teatro Nacional de S. João, superiormente dirigida por Ricardo Pais, que está manifestamente nesta categoria. Um espetáculo produzido a partir de textos de Fernando Pessoa (num trabalho notável de António M. Feijó) que demonstra, antes de mais, como se pode produzir um objecto teatral de luxo e de grande intensidade e densidade dramatúrgica, tendo sobretudo como matéria prima um enorme rigor e uma grande conjugação de talentos. Rigor e talento, aquilo que, simultaneamente, é necessário e falta a grande parte do teatro que se vai vendo por aí...

Um destaque especial —que se justifica pela natureza particular destes meus "Fragmentos"— para o fantástico trabalho de voz dos actores e para design sonoro do Francisco Leal. Precioso!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Histórias Sonoras II

Tínhamos acabado a conversa anterior e acabáramos justamente de desligar o telemóvel. Eu tinha parado o carro num estacionamento em frente a uma esquina aqui no centro de Benavente. Qualquer coisa me suscitou a curiosidade na paisagem sonora desta minha nova terra ribatejana. Quando parei para prestar atenção ao que se passava, comecei a distinguir o som de um siringe, desses que os amoladores usam para anunciar a sua presença. Imediatamente localizei a fonte sonora.
Mas, para meu espanto, havia outro! Dois amoladores aproximavam-se, provenientes de duas ruas diferentes, sensivelmente à mesma distância da esquina onde me encontrava.
O amolador é uma espécie em vias de extinção. Consequentemente, o som do seu instrumento (o tal siringe) já praticamente se não ouve nos dias que correm. Qual será então a probabilidade de apanhar um dueto simétrico de siringes, numa esquina de Benavente, que parecia escrito por um compositor invisível neste ano de graça de 2008, alguns segundos depois de ter estado a falar sobre uma sinfonia para martelos, brocas pneumáticas, chapas de metal e coro, que parecia ter sido escrita também por um compositor invisível, a decorrer neste momento numa praça de Caldas da Rainha...?


Coincidências improváveis # 2.

Histórias sonoras I

O meu amigo Fernando Mora Ramos telefonou-me a contar que tinha tido uma invulgar experiência sonora e musical. Junto à sua casa decorrem neste momento obras de construção de um enorme complexo hoteleiro. Passada a fase das retro-escavadoras, começaram as obras de cofragem. A "orquestra" mudou. Agora os "naipes" desta nova "orquestra" são constituidos por martelos, brocas pneumáticas, chapas de ferro e, também, vozes. Num determinado momento, um acaso "sincronizou" esta orquestra improvável, produzindo um resultado, imagino eu, para-musical... 
Falámos sobre isto e eu recordei o trecho Lion Dance do histórico "Vancouver Soundscape" gravado na Chinatown de Vancouver. Foguetes misturam-se com os tambores produzindo num determinado momento uma sequência que parecia ter sido escrita por um compositor invisível. Jung era invocado pelos autores deste estudo hoje clássico.

Coincidências improváveis # 1.