quinta-feira, 20 de abril de 2006

Música e ruído

É frequente hoje ver e ouvir as expressões música e ruído serem usadas de forma intermutável. Com John Cage aprendemos a incorporar os sons do quotidiano na música e com R. Murray Schafer o quotidiano dos sons passou a ser encarado como uma composição musical, na concepção da qual todos temos reponsabilidade. Ruído passou, pois, a poder significar também... música! Uma outra coisa, porém, é equiparar a música a ruído. O meu amigo José Carlos Faria chamava-me a atenção há dias para o facto de um dos personagens de uma nova peça em que ambos estamos a trabalhar (o cenário desta peça e a gravura inclusa que o representa são de sua autoria; ver mais informação aqui) perguntar, a propósito de uma fragmento musical que se ouvia, "Que ruído é este?". No caso, como notava aquele meu amigo, a música até era minha... Num jornal televisivo, mostrava-se uma reportagem sobre o "Rock in Rio". Uma acção de promoção levou o grupo Tocá Rufar para a rua. Centenas de percussionistas percorriam a baixa de Lisboa fazendo soar os seus tambores de forma a chamar a atenção dos transeuntes para o evento. A jornalista interrogava um transeunte que assistia ao trabalho dos músicos: "Foi o ruído dos tambores que o atraiu?" A música tornou-se ruído e o "ruído" parece ter-se tornado música. Haverá música a mais? Haverá direito ao silêncio? Haverá controlo possível? Que devem fazer os músicos como eu perante toda esta situação? Quais são as fronteiras entre música e trabalho? Sendo a nossa responsabilidade muito maior, como músicos e compositores, como manipuladores de sons, teremos nós o direito de despejar mais música sobre esta paisagem sonora já demasiadamente sobrecarregada? Devemos dar o exemplo e calarmo-nos... arriscando-nos a acabar, seguramente, falidos?! Ou haverá uma forma de música responsável que, preservando a nossa arte, alerte para os perigos da música a mais...?