sábado, 14 de outubro de 2006

Tempo suspenso


É a segunda referência a Stockhausen que faço num relativamente curto lapso de tempo (ver aqui uma outra nota na versão inglesa dos Fragmentos, sobre o 'Hymnen').
Falando de tempo, fui ontem ouvir 'Stimmung' de Stockhausen ao Mosteiro dos Jerónimos. Um concerto integrado na edição de 2006 do festival Música Viva.
Ao ouvir a excelente prestação do Sing Circle, no antigo refeitório dos monges, não pude deixar de pensar que se fundiam naquele momento três tempos diferentes.
Parece de facto que "o tempo não pode ser separado do ser", como dizia Stockhausen a Jonathan Cott numa conhecida entrevista.
Um primeiro tempo: o local.
O antigo refeitório dos monges da Ordem de S. Jerónimo foi construido entre 1517 e 1518. Ouvindo 'Stimmung' naquele ambiente não me pude abstrair dos ecos do passado que emanam daquele local e da utilização original que teve. Imaginei os monges sentados, recolhidos, tomando as suas refeições acompanhados pela leitura, certamente pausada e serena, das Sagradas Escrituras e da Vida dos Santos. 'Stimmung' poderia constituir decerto um bom stimmung para as refeições dos monges...
O segundo tempo: a obra.
'Stimmung' foi composto em 1968. Tratou-se de uma encomenda do Collegium Vocale da Escola de Música de Colónia. É uma obra escrita durante um período particularmente fértil de Stockhausen, que no espaço de poucos meses compôs também duas outras obras bastante emblemáticas: 'Aus den Sieben Tagen' e 'Kurzwellen'. 'Stimmung' surge num tempo particular da vida de Stockhausen em que as preocupações de natureza espiritual se casam com o aparecimento na sua vida da pintora Mary Bauermeister , a quem de resto a peça é dedicada. Stockhausen descreve o poema de Stimmung como tendo sido escrito durante "tempos de paixão em Abril de 1967, em Sausalito." É também uma das últimas peças marcadas pela influência do conceito de "moment form" que dominou a obra deste compositor durante todo este período.
É sempre curioso revisitar todo este universo de 'Stimmung', verificar a capacidade da obra para continuar a suscitar este ambiente quase mágico e intimista e relembrar os traços estilísticos deste compositor que fizeram dele uma figura de grande e indiscutível relevo. Serão qualidades que sobreviveram ao teste do tempo, pelos vistos, e justificam, legitimamente, a sua presença num festival como o Música Viva.
O terceiro tempo: o tempo presente.
'Stimmung' foi composto em S. Francisco em pleno período do flower power. Alguns vêem até nesta obra a resposta particular de Stockhausen ao frémito desse momento.
As virtudes desta obra transcendem claramente o momento histórico em que foi composta. Apesar de 'Stimmung' evocar determinados valores e conter princípios operacionais caros às audiências da época --que não impediram que a obra tenha suscitado algumas reacções violentas, a mais notória das quais, inúmeras vezes referida por Stockhausen, ocorreu na Holanda, no Concertgebouw, originada pelas reacções de jovens compositores da altura, indentificados com o movimento provo, que resultou mesmo na interrupção da execução ao fim de apenas vinte minutos--, o certo é que o enquadramento social da época em que a obra foi composta e primeiro executada não é o de hoje. Desta forma, a análise do comportamento das audiências modernas, intrigante sob certos aspectos, transforma-se num exercício em nada dispiciendo. Abandonar a sala não é hoje um sinal de protesto. O que é então?
Numa análise apriorística, sou levado a pensar que depois de anos de submissão aos "ritmos" e ao estilo da vida modernos, a capacidade de escuta da generalidade dos espectadores de hoje atingiu um escandalosamente baixo nível e o seu tempo de concentração, diria que é inferior ao de uma galinha. Não admira que as pessoas "não aguentem" uma obra como 'Stimmung' que implica uma fina capacidade de audição e dura sempre para cima de uma hora. Ao meu lado ontem, uma mãe trocava impressões tranquilamente com a filha e mostrou-se bastante agastada quando lhes mostrei o meu desagrado com aquele surpreendente comportamento. Falar durante a execução de uma obra como 'Stimmung' seria para elas um direito adquirido que eu desafiava de forma arreliadora. Não escandalizou, portanto, ninguém quando as duas acabaram por sair para continuar a conversa noutro local, longe daquela barulheira que os cantores faziam... Um outro espectador grunhia uns cometários em voz alta, sem que pudéssemos descortinar-lhe o sentido ou o destinatário. Inconvenientes em todo o caso.
Apesar de tudo, apesar dos "grunhos" militantes ou dos desertores equivocados, não creio que nesta versão de Lisboa, o seu número tenha sido particularmente significativo, quando comparado com o que aconteceu por ocasião de outras execuções da obra.

O que eles não ouviram foi o aplauso no final, entusiástico e creio que sentido.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

Quase luto

Acabo de ouvir a pianista Maria João Pires anunciar que vai viver para o Brasil. Com esta decisão chega ao fim o projecto Belgais. Tive a oportunidade de visitar Belgais e conhecer um pouco este projecto em 2003. O que ouvi e vi deixou-me um sentimento de empolgamento como há muito não experimentava. Belgais era um projecto sem paralelo.

Maria João Pires justifica a sua saída do país com os "malefícios" que Portugal lhe estaria causar. Era quase a sua sobreviência física que estava em causa, afirmou.

Agora a pianista vai para S. Salvador da Bahia onde irá criar um novo projecto na linha do que idealizou para Belgais. Esse, entretanto, sem ela por perto, irá certamente definhar e encontrar um fim sem glória. 


É quase um sentimento de luto aquele que experimento neste momento.


Foto: Coro de Belgais actuando no Coimbra Vibra! em 2003 

domingo, 2 de julho de 2006

O ruído é do povo?

Há cerca de vinte anos estive  profundamente envolvido na elaboração e implementação do Regulamento Geral sobre o Ruído. Todos nós, os que nos interessamos e lutamos por um ambiente mais equilibrado e, em particular, trabalhamos na área específica da comunicação e da ecologia acústica, nos congratulámos com o surgimento deste Regulamento. Significava um passo importante —susceptível de correções certamente— no sentido de criar uma comunidade mais civilizada em Portugal. Penso que o respeito pelo direito a um ambiente sonoro equilibrado é a bitola para medir o grau de civilidade de uma sociedade. 
Na altura, o RGR foi alvo de uma série de críticas que, raramente, tinham algum fundamento ou legitimidade. Lembro-me. em particular, da reacção de um pateta, que mais tarde foi ministro da República Portuguesa, um dos políticos que mais “ruído” —aqui no sentido mais básico do termo, i.e., som sem conteúdo informativo, som incomodativo— consegue gerar. Escrevia a criatura no jornal que então dirigia, que o RGR constituia uma tentativa de "nacionalizar" o ruído. 
A imagem é infeliz. É que, entretanto, segundo dizem as estatísticas, o ruído terá passado de segundo lugar entre as causas de reclamação sobre disfunções ambientais para primeiro. A surdez profissional terá também passado de segundo para primeiro lugar no quadro das doenças profissionais. O ruído era e continua a ser apontado como a principal causa de desconforto das populações em todos os inquéritos sobre a qualidade do ambiente que têm sido feitos desde então. Infelizmente, a "nacionalização" do ruído, pelos vistos, não foi afinal tão eficaz como seria desejável. Os problemas agravaram-se, para mal das populações.
O RGR de 1987 foi alvo, entretanto, de uma primeira série de correcções que originaram um novo diploma em 2000 e, mais recentemente, foi aprovado na generalidade um novo Regulamento que introduz alterações significativas nos textos originais. 
Tudo isto levou a que a esta questão se tivesse passado a presstar mais alguma atenção. Embora tudo isto pareça insuficiente. A questão do ambiente sonoro parece estar a mexer, pelos vistos, embora o trabalho essencial esteja por fazer. A começar pela prática das Câmaras Municipais que pode constituir uma forma de agravamento de um problema, já de si bastante preocupante. Li, por exemplo, há pouco tempo, que a Refer está a desenvolver um plano de modernização da linha de Cascais que contempla medidas visando reduzir os níveis de poluição sonora e aumentar o conforto acústico dos diferentes componentes do seu sistema de transporte. Mas, ainda mais recentemente,depois de apresentar uma queixa, fui informado pela Esquadra da PSP de Carcavelos, que a C. M. de Cascais teria dado uma licença para um bailarico no meio de uma zona habitacional até às duas horas da madrugada! Invocando, certamente, o superior interesse dos dançarinos, mas esquecendo o interesse de quem merece e exige sossego. Os moradores deste bairro irão pois, em breve, poder viajar em comboios acusticamente confortáveis, onde poderão dormir em sossego, depois de uma noite de sono perdida por causa do bailaricos autorizados pela câmara...

Como disse atrás, o respeito por um ambiente sonoro equilibrado, e, designadamente, pelo direito a uma moldura de silêncio a partir da qual todos se possam expressar com o possível vigor sonoro, é a bitola que nos permite aferir o grau de civilização de uma sociedade. Tripudiar sobre este direito pode ser tão vergonhosamente primitivo como o conflito entre Hutus e Tutsis. Pode não parecer, mas é assim...

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Vidas perdidas

Há quase 60 anos ia passar férias a uma quinta de uns amigos de meus pais. Passei hoje por lá. A foto mostra um caminho, junto dessa quinta, que percorri vezes sem conta durante as minhas brincadeiras. A quinta fica a uns 50 quilómetros de Lisboa. A viagem na altura era uma odisseia para a qual nos tínhamos de preparar com tempo e cuidado. Apesar de não haver problemas de tráfego nesse tempo, os escassos 50 quilómetros demoravam uma eternidade a percorrer. Eu enjoava muitas vezes pelo caminho, graças às curvas e contracurvas.
Não havia electricidade, na altura, por estas paragens. O dia começava e acabava cedo. A noite cerrada convidava a dormir. Ninguém ficava, obviamente, a ver o filme da meia-noite no cabo. Não havia cabo, não havia sequer rádio a pilhas nessa altura. O "transistor" portátil ainda demorou uns bons anos a fazer a sua aparição. Ninguém ficava, tão pouco, na cama até ao meio-dia. Os nossos ritmos estavam condicionados pela luz do dia. Andávamos à solta em constante “modo de aventura”. Estas férias constituiam, para mim, um prazer indescritível e permanecem gravadas nos cantos mais doces da memória.
Acabadas as férias voltávamos para o "conforto da cidade". Luz eléctrica, o rádio a válvulas, o ferro eléctrico... Os ritmos diários não mudavam tanto assim, mas na cidade podíamo-nos mover de noite, se houvesse necessidade, sem tropeçarmos a cada passo.
Nessa altura ainda comíamos os produtos que vinham destas paragens. Não havia "congelados", o peixe comprava-se todos os dias na "praça do peixe" e a fruta e as hortaliças vendiam-se no mercado ou em "lugares" abastecidos por lavradores de quintas como esta, precisamente, onde passava férias. Nesta altura também, por estas bandas, o médico e a cura residiam longe. Percebo pois que as gentes que habitavam as zonas rurais se quisessem mudar para as vilas e cidades mais próximas. E de facto, volta não volta, lá apareciam por Cascais novas caras de gente tisnada pelo sol dos campos, mãos rudes que procuravam trabalho ali onde, qual milagre!, para iluminar uma quarto, não era necessário mais do que um gesto banal e onde a saúde estava um pouco mais perto. E percebo ainda melhor que os que habitavam as quintas e os casais por esse Portugal fora quisessem sair da sua escuridão. Os "petromaxes" e os candeeiros a petróleo eram os mesmos, contudo a distância tornava a noite mais escura.
Mas, hoje?!!
Que justificação há para o contínuo êxodo para as cidades que ainda se verifica? Por que não foi encontrada uma forma mais equilibrada de ocupar o território? Será assim tão complicado?!
O cabo, os computadores, os telemóveis e os utensílios eléctricos são coisas banais. A quinta que outrora se iluminava a "petromax" ostenta agora uma antena parabólica...
Ignoro a razão que leva as pessoas a amontoarem-se em pequenos apartamentos, onde se ouve o vizinho nos seus actos mais íntimos, em prédios descaracterizados, situados em cidades saturadas de gente, em clima de pré-guerra civil. Cidades sem capacidade para acolher mais ninguém, sem possibilidade de proporcionar nenhuma nova verdadeira oportunidade, cidades onde nada de verdadeiramente diferente se passa. Cidades onde parece cada vez mais impossível criar condições para travar a tensão permanente que acompanha, sub-reptícia, o nosso dia a dia.
Como ignoro também a razão que leva milhares de pessoas a ensardinharem-se num carro ao fim de semana, para, inebriados certamente pelos gases dos escapes, rumarem em filas intermináveis de trânsito, a uma praia da lata a fim de desfrutar uma nesga de sol, numa nesga de areia fofamente atapetada de coliformes fecais.
Como ignoro, finalmente, a razão pela qual milhões de seres humanos, vivos e inteligentes, se deixam cair, inanes, num sofá a ruminar frente a um ecrã de televisão as maiores boçalidades e barbaridades que a humanidade jamais foi capaz de produzir em milhares de anos de civilização, e fazem, por incrível que esta veerdade possa pareçer, destes seus actos o seu acto de resistência.
Os papagaios idiotas que nos governam há anos e outras criaturas pagas para pensar por nós, repetem-nos incessantemente e com pompa, justamente através dos mesmos canais que passam estas mesmas boçalidades e barbaridades, que a esperança de vida aumentou e que hoje, graças às modernas possibilidades das cidades, temos uma vida mais prolongada e cheia dos confortos únicos, de benesses infindas e de oportunidades excitantes que só as cidades proporcionam. Lembram-nos que vivemos num país rico. Que somos do primeiro mundo. Deveríamos estar todos, portanto, de parabéns...
Do meu círculo de amigos mais antigos e mais íntimos, sobramos poucos. O resto já marchou ou prepara-se para marchar em breve. Vamos vendo, aos cinquenta e tal anos, sessenta, pais com oitenta e muitos, noventa e cem anos, rijos que nem peros sobreviverem, alegremente, aos seus filhos. Vamos observando tudo isto, uns do leito do hospital e outros perguntando se também iremos contrariar a ordem antiga e natural das coisas...

Há qualquer coisa de errado que estamos a fazer. Há conclusões erradas que estamos a tirar e mitos que estamos a alimentar. Afinal de que nos serve, de facto, este milagre,  impossível na quinta da minha infância, de conseguirmos iluminar uma casa inteira pelo simples toque de um botão? O que anda, é justo perguntar, esta mole imensa de gente das cidades a fazer? Como vão, em particular, as novas gerações reagir a tudo isto?

quarta-feira, 17 de maio de 2006

O homem das castanholas

Tentei fotografá-lo enquanto conduzia mas não consegui. Para que todos pudessem acreditar nesta história. 
Tinha parado num sinal vermelho e pareceu-me ouvir atrás de mim... umas castanholas. Era verão, tinha os vidros bem abertos. O som parecia provir do carro que estava parado atrás do meu. O facto parecia-me tão insólito que pensei tratar-se de uma qualquer alucinação. O sinal abriu, afastámo-nos e eu esqueci o caso, concentrando-me na condução.
Recomecei a ouvir, entretanto, as castanholas. O carro referido, reaproximva-se e acabou por me ultrapassar. 
Surpresa! Pude então ver e ouvir o condutor que passava ao meu lado: dos altofalantes do carro saía uma música cheia de "salero" enquanto ele, impassível, praticava as suas castanholas e conduzia ao mesmo tempo...

Que novo artigo terá de ser incluído no Código da Estrada para combater o uso de castanholas durante a condução...? E a Prevenção Rodoviária? Irá lançar a campanha "Se conduzir... não toque castanholas?!” 
É que hoje são castanholas, mas amanhã o que será? Tuba? Piano?! Bateria??!!!

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Vida prática

Uma conhecida loja de produtos culturais (cujo nome me abstenho de referir aqui a menos que me paguem a publicidade...), cada vez mais dedicada à venda de electrodomésticos, existe uma área na sua secção de livraria encimada pelo sinal que a foto mostra. 
Não sei se se trata de uma sugestão subliminar, se é o resultado de uma qualquer filosofia comercial secreta, produto de uma acção fortuita, ou a imprevista iniciativa de um funcionário anónimo. 
O resultado não deixa, em todo o caso, de dar vontade de rir. Convenhamos...

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Música e ruído

É frequente hoje ver e ouvir as expressões música e ruído serem usadas de forma intermutável. Com John Cage aprendemos a incorporar os sons do quotidiano na música e com R. Murray Schafer o quotidiano dos sons passou a ser encarado como uma composição musical, na concepção da qual todos temos reponsabilidade. Ruído passou, pois, a poder significar também... música! Uma outra coisa, porém, é equiparar a música a ruído. O meu amigo José Carlos Faria chamava-me a atenção há dias para o facto de um dos personagens de uma nova peça em que ambos estamos a trabalhar (o cenário desta peça e a gravura inclusa que o representa são de sua autoria; ver mais informação aqui) perguntar, a propósito de uma fragmento musical que se ouvia, "Que ruído é este?". No caso, como notava aquele meu amigo, a música até era minha... Num jornal televisivo, mostrava-se uma reportagem sobre o "Rock in Rio". Uma acção de promoção levou o grupo Tocá Rufar para a rua. Centenas de percussionistas percorriam a baixa de Lisboa fazendo soar os seus tambores de forma a chamar a atenção dos transeuntes para o evento. A jornalista interrogava um transeunte que assistia ao trabalho dos músicos: "Foi o ruído dos tambores que o atraiu?" A música tornou-se ruído e o "ruído" parece ter-se tornado música. Haverá música a mais? Haverá direito ao silêncio? Haverá controlo possível? Que devem fazer os músicos como eu perante toda esta situação? Quais são as fronteiras entre música e trabalho? Sendo a nossa responsabilidade muito maior, como músicos e compositores, como manipuladores de sons, teremos nós o direito de despejar mais música sobre esta paisagem sonora já demasiadamente sobrecarregada? Devemos dar o exemplo e calarmo-nos... arriscando-nos a acabar, seguramente, falidos?! Ou haverá uma forma de música responsável que, preservando a nossa arte, alerte para os perigos da música a mais...?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

O que seria da televisão sem a rádio?

Um excelente blog que frequento regularmente, "A Rádio em Portugal", faz hoje aqui uma pergunta que merece reflexão: o que seria da TV sem Rádio? Indo para além da questão substantiva que este post pretende abordar, a resposta a uma pergunta deste tipo tem vários níveis, ou, se quiserem, há várias respostas possíveis. Não cabe aqui fazer teoria sobre o assunto, mas parece de facto legítimo dizer que apesar do domínio avassalador dos meios de informação baseados na imagem, a operacionalidade do som faz com que a rádio seja um elemento privilegiado e insubstituível no processo de comunicação. Não só a audição é mais ágil e mais autónoma que a visão, como todo o processo de produção audio acaba por ser igualmente mais enxuto e universal. Por outras palavras, é mais fácil captar, montar e transmitir o sinal acústico que o sinal visual (sendo que a componente acústica dos meios de comunicação audio-visuais continua a ser determinante de qualquer forma.)
Aqui há tempos tentei uma experiência numa entrevista dada para um programa da RTP2 (ver aqui um excerto). A entrevista tinha justamente por tema a importância do som nas nossas vidas e para ilustrar o meu ponto de vista calei-me a dada altura, durante uns segundos breves (devem ter sido os segundos mais caros da tv portuguesa...). Tentei demonstrar que a ausência de som em televisão pode matá-la. O resultado foi um rápido momento de pânico generalizado, como nunca tinha observado num estúdio. Só nos faz falta quando falta, poderia ser a conclusão desta experiência. Nem os próprios profissionais se dão por vezes conta desta verdade.
A rádio infiltra-se pelas avenidas, ruas, becos e corredores da rede de entendimento da realidade que nos rodeia de uma forma que a televisão muito dificilmente é capaz. E a "televisão sonora" é uma redundância sem qualquer utilidade.
Estou sem televisão por cabo vai para sete meses porque mudei, entretanto, de casa e resolvi acabar com esse flagelo. Digo-vos: nunca me senti tão bem. Voltei a ouvir rádio com mais frequência e sinto que ganhei imenso com a "despromoção". Até o relato de futebol (um hábito quase esquecido) se revela uma experiência renovada e fascinante.

Viva a rádio!