terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os dois relojoeiros


Havia em tempos longínquos, na cidade de La Chaux-de-Fonds, dois relojoeiros muito apreciados pela especial qualidade dos relógios que produziam. Havia uma certa disputa até entre eles. 
Não faltavam artífices distintos nesta cidade, que a pouco e pouco começou a tornar-se muito conhecida por isso. Aqui se fabricavam os melhores e mais precisos movimentos, as mais robustas e mais sólidas caixas, os mais belamente decorados mostradores. Os relojoeiros de La Chaux-de-Fonds orgulhavam-se da excelência dos seus conceitos, da quase sobre-humana exactidão dos seus métodos de trabalho, do requinte extremo dos seus preciosos acabamentos, mas era no rigor das medições que os seus relógios proporcionavam que colhiam um sentimento especial. Um ano era um ano, um mês era um mês, um dia tinha vinte e quatro rigorosas horas, cada hora tinha sessenta precisos minutos, cada minuto era medido em sessenta completos segundos e cada segundo era um instante exacto, cuja absoluta duração era, não só, certa como mais nenhuma outra, mas, sobretudo, imutável. Um segundo era um segundo num relógio saído das mãos de um destes relojoeiros, e continuaria a sê-lo muitos anos depois, apesar do incessante movimento de todo aquele mecanismo. Um segundo era uma categoria imutável, preciosa, segura. O Tempo parecia, graças a estes mecanismos invulgares, uma categoria absoluta, inalterável, implacável no seu inexorável progresso, mas dócil e estranhamente confortável na precisão com que os seus instantes fundadores poderiam ser assim medidos.
Entre os muitos relojoeiros capazes de fabricar tão magníficas máquinas, estes dois  eram reconhecidamente os melhores e especialmente apreciados porque a precisão dos seus mecanismos e a extrema beleza dos seus produtos excediam as de todos os outros. 
Um dia um estranho fenómeno atingiu estas duas manufacturas. Subitamente os relógios que estavam prontos a serem expedidos para os clientes, descontrolaram-se. Uma hora podia durar um segundo, um segundo prolongava-se por dias. Mais estranho, a hora recuava, acelerava, oscilava, por vezes parava, estranhamente. Um instante parecia suspender-se, por vezes, não se conseguindo adivinhar qualquer movimento. O Tempo tinha passado a controlar os relógios.
Os relojoeiros observavam, inspecionavam, testavam. Não havia dúvida: o Tempo controlava os instrumentos que o tentavam medir. Nunca foi possível perceber por que razão o Tempo decidiu assim tomar conta dos mecanismos dos relógios e, sobretudo dos que tinham sido fabricados por este dois relojoeiros, em particular. Porquê estes dois? Sabe-se que na ânsia de salvar as suas manufacturas eles procuraram afanosamente explicações, elaboraram teorias, procuraram retomar o controlo. Sabe-se que acabaram por desistir. Sabe-se também que decidiram, no final, abraçar as possibilidades que o Tempo lhes estava assim a proporcionar. 
Sabendo que eram os melhores relojoeiros de La Chaux-de-Fonds, tendo ficado a conhecer, como mais ninguém, o poder que o Tempo tem, decidiram render-se-lhe. Esse Tempo, que eles teimosamente procuraram medir com a maior precisão possível, era afinal uma entidade com poder próprio, que não se deixava subjugar nem conter num simples mecanismo, por mais preciso e belo que pudesse ser, que ditava, ele sim, as suas próprias leis. O Tempo não se deixa medir. 
Os dois relojoeiros decidiram então fechar as suas manufacturas, mas antes fabricaram um exemplar único deste relógio que mostrava o tempo que o Tempo dava e oferecê-lo ao outro. Cada um traz agora no pulso o relógio que o outro lhe ofereceu e vive a vida ao ritmo que o Tempo dita. Um tempo sem a falsa e impraticável precisão que os relógios que fabricaram toda a vida lhes proporcionava.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A Marina




As manifestações de apreço que me têm sido transmitidas a propósito desta ópera TMIE, standing on the threshold of the outside world são invariavelmente do tipo "parabéns, muito bom [pausa dramática] e a cantora! Que fantástica, como é que ela conseguiu meter aquela música toda na cabeça, e que força é preciso ter para estar uma hora, assim, sozinha em palco..."
Pois bem, estas apreciações sobre a Marina pecam por um motivo: ficam muito aquém dos elogios que ela merece.
Eu sei porque acompanhei e orientei, no contexto do papel que me cabia, o trabalho dela e, digo-vos, não consigo encontrar palavras que traduzam exactamente o elogio que gostava de lhe fazer e que ela merece.
Eu sei porque passei com ela horas e horas de ensaio, partilhei pausas, fui verificando momento a momento a evolução e os resultados do nosso processo de trabalho. A obra foi nascendo, foi ganhando vida, porque a Marina lhe deu vida!
Sei-o, digo-o categoricamente, como mais ninguém.
Claro que se poderia falar do inexcedível talento, da imensa frescura e luminosidade que irradia a sua presença, da incrível capacidade vocal, da surpreendente versatilidade, da exigência e meticulosidade com que encarou este trabalho, do imenso "profissionalismo", da inteligência, da vivacidade, enfim. Tudo isso seria e é verdade. Mas citar apenas estes factores peca por defeito e levar-me-ia a cometer uma tremenda injustiça. A Marina é muito mais do que isto que referi. É tudo isto, sim, e mais tudo aquilo que faz com que tudo isto, quando comparado com tudo aquilo, não passe de coisa simplesmente normal.
Acreditem, eu sei. E repito-o categoricamente.

TMIE, standing on the threshold of the outside world (Texto da folha de sala)




No limiar do mundo exterior

Não, não se trata de uma gralha. TMIE é o acrónimo de Transmembrane Inner Ear (transporte trans-membranário do ouvido interno). É um gene, um dos elementos inicialmente activos na formação do ouvido interno, que está presente na cóclea e faz parte do complexo processo de transdução electromecânica do som para o nervo auditivo.
O mau funcionamento deste gene é causa de surdez. O seu funcionamento, em condições normais, medeia a passagem entre o mundo sonoro exterior — o das variações da pressão sonora do ar que nos chega ao ouvido interno e o nervo auditivo — até a informação, finalmente, chegar ao cérebro e ser por ele processada.
TMIE é título escolhido para esta obra como um símbolo da ligação do nosso mundo exterior ao mundo interior.
Em TMIE duas deusas, de mitologias diferentes, têm uma conversa improvável sobre os seus universos pessoais. Meretseger, aquela que ama o silêncio, desvenda-nos o que ouve por detrás desse silêncio. Selene, aquela que percorre os céus no seu carro de prata puxado por cavalos, adivinha os ritmos dos astros que vai descobrindo nestas suas deambulações. Um Corifeu ouve o que as duas deusas dizem, procura interpretar a essência das suas palavras e faz-nos a sua síntese.
Os três representam personagens reais.
Meretseger é Beverly Biderman, a canadiana que aos 46 anos, depois de uma surdez profunda desde os 12, decidiu submeter-se a uma operação de colocação de implantes cocleares. Recuperou a audição e teve de reaprender a ouvir. Selene é Henrietta Leavitt, a astrónoma americana. Descobriu a forma de fazer esta coisa quase inimaginável: medir o universo. Henrietta era surda, mas, através da fotometria, parecia ouvir o que os astros lhe diziam. Os seus ritmos, as suas palavras. O Corifeu é Empédocles, o filósofo pré-socrático que procurava as categorias essenciais do Universo e que foi o autor da primeira teoria sobre a natureza do ouvido e da audição. O ouvido: um sino, um ramo carnudo.
Relacionamo-nos com o ambiente que nos rodeia. Perante os sinais e efeitos que dele emanam e a nossa capacidade de os interpretar, o que resta? Consciência? Livre arbítrio? Alma?
Francis Crick sugere que uma parte do cérebro se ocupa a planear acções futuras. Temos consciência das decisões que tomamos em resultado desse planeamento, não do planeamento em si.
Henrietta Leavitt ouvia ou não realmente as estrelas? "Ouvimos com o cérebro" diz Biderman. O implante coclear produziu um "truque da mente" que lhe permitiu voltar a ouvir. "Não ouço como vós" acrescenta Biderman. Quem sabe o que ouve, de facto, Beverly Biderman? Como poderá saber ela o que cada um de nós ouve?
(O libreto desta opera está disponível em http://carlosalbertoaugusto.org)

Agradecimentos:
Um agradecimento, em primeiro lugar, a Beverly Biderman e a George Johnson pela forma generosa como acolheram este projecto. O libreto de TMIE baseou-se sobretudo em dois livros destes dois autores. De Biderman, Wired for Sound: a journey into hearing (1998), recentemente revisto e disponível em formato ebook. De Johnson, Miss Leavitt's Stars: the untold story of the woman that discovered how to measure the Universe (2005). As fontes utilizadas para o libreto completam-se com versões dos Fragmentos de Empédocles, coligidos a partir de traduções diversas, e num fragmento do soneto Evolução de Antero de Quental.
A música de TMIE foi desenvolvida e produzida a partir da ideia da sonificação de curvas de roleta e espirais. Este trabalho foi totalmente realizado com o Kyma, o gerador e processador digital da Symbolic Sound, a quem também ficam aqui expressos os meus agradecimentos.
Ficam também agradecimentos institucionais. À Miso Music Portugal e à Widex em primeiro lugar, por terem contribuído de forma definitiva para tornar TMIE uma realidade. Agradecimentos especiais também à Avantools e ao Teatro da Rainha, pelo apoio imprescindível que deram a este projecto.
Por detrás das instituições estão os indivíduos. Agradecimentos sentidos a Miguel Azguime, Tiago Nunes, Paulo Jorge Ferreira, Fernando Mora Ramos, Ana Pereira, Filipe Gill Pedro, João Pedro Leão, Jorge Simões da Hora, Miguel Lourtie e Margarida Vargas.
E como os últimos são os primeiros, fica por fim um destaque especial e um agradecimento infinito a Marina Pacheco. O entusiasmo e o superior talento que colocou ao serviço deste desafio e a energia que lhe dedicou seriam suficientes para me deixar em eterno défice de gratidão. Acresce que, como se tudo isto fosse pouco, é ela que dá a vida que faltava a esta obra. É o seu rosto, mas também a sua alma.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Uma ópera sobre a espiral


"TMIE, on the threshold of the outside world" é uma nova ópera de Carlos Alberto Augusto. Marina Pacheco, admirável soprano, vai estrear a obra no próximo dia 8 de setembro no O'culto da Ajuda.
TMIE tem um libreto baseado no livro de Beverly Biderman "Wired fro Sound: a journey into hearing" e no livro de George Johnson "Miss Leavitt's Stars: The Untold Story of the Woman Who Discovered How to Measure the Universe", assim como excertos do filósofo Empédocles e do poeta Antero de Quental.
Biderman é a canadiana, surda profunda desde os 12 anos, que aos 46 se submeteu a uma operação de colocação de implantes cocleares e nos descreveu o processo complexo de reaprendizagem da audição. Nessa descrição da reaprendizagem adivinhamos o que é a aprendizagem . Leavitt é a astrónoma, também surda, que criou as bases de trabalho que permitiram esta coisa espantosa que é conseguir medir o universo. Fê-lo enquanto ouvia o "ritmo das estrelas". Empédocles é o filósofo grego que criou a primeira teoria sobre o ouvido e a audição. 
A surdez é de facto um tema central desta ópera, mas o trabalho aponta também noutras direcções, designadamente a nossa relação com a realidade que nos rodeia (exterior e a nossa própria realidade física interna), mas sobretudo o mundo dos nosso pensamentos e da nossa consciência, atrever-me-ia a dizer, da nossa alma. Das espirais da cóclea às espirais das galáxias.
O soprano Marina Pacheco interpreta três papéis diferentes nesta obra, cuja música, totalmente electrónica, foi concebida com a ajuda do sistema Kyma e se baseia na sonificação de curvas de roleta. Um sistema de 10 altifalantes cria o espaço acústico deste TMIE. Um video, especialmentee produzido para este trabalho serve simultaneamente de cenário e de iluminação. 
Aqui encontrará mais informação sobre esta obra..
Depois da estreia em Lisboa "TMIE" entrará em digressão.


quinta-feira, 26 de maio de 2016

O Manel

"Acredito firmemente que sem especulação não existe observação de qualidade e original", terá dito Darwin.
As expressões faciais de bebés e crianças têm sido objecto de análise por numerosos cientistas. Darwin é, ele próprio, uma figura de referência no domínio da análise das expressões faciais em geral, e este tema, em particular, o da expressão facial das crianças, não lhe escapou à atenção.
Tudo isto vem isto a propósito de uma situação que aconteceu ontem comigo.
Eu conto.
Estava numa esplanada com uma amiga. Na mesa ao lado sentava-se uma jovem mãe com um bebé e um casal que imaginei que fossem os avós do bebé.
O bebé estava virado para mim, mas entretido na brincadeira com a mãe e só a ela parecia prestar atenção. De repente os nossos olhares cruzaram-se. A expressão do bebé indicava claramente uma reacção que me deixou especialmente intrigado. Passados escassos segundos, o bebé voltou a buscar o meu olhar e novamente lhe observei uma expressão facial especial.
Fiquei curioso, a imaginar qual teria a razão para aquele comportamento que me pareceu francamente fora do normal. Nem a expressão facial parecia própria de um bebé, ainda de mama como aquele era, e muito menos me parecia normal aquela clara insistência do olhar e a reacção subsequente.
De repente fez-se luz. Lembrei-me que talvez um mês antes tinha estado na brincadeira com ele num restaurante. Era o Manel! Algo na nossa brincadeira teria deixado uma qualquer marca porque lembro-me que, depois de terminada a refeição, enquanto se ia embora, ao colo do pai, o bebé se despediu de mim com um aceno que foi, aliás, notado pelos presentes. 
Confirmei com a mãe. Sim, tinham estado no restaurante nessa noite, ela lembrava-se de todo este episódio perfeitamente.
Ora bem: ontem o bebé reconheceu-me. Para minha vergonha confesso que, na altura, não me lembrei, eu, de tudo isto. Mas recordo-me que, quando notei aquele seu primeiro olhar, me passou pela cabeça que havia qualquer coisa de familiar no rosto daquela criança. Foi a insistência dele, como que a dizer-me "então não te lembras de mim?", que me fez recordar o que se tinha passado naquela noite.
Esta história não tem conclusão ou "moral". Mas quem me lê irá decerto poder extrair muitas conclusões e descobrir a "moral por detrás de tudo isto. E irá escolher decerto a que mais lhe convier.

sábado, 30 de abril de 2016

Paulo Varela Gomes

Uma singelíssima homenagem a alguém que admirei muito. Morreu hoje.
Escrevi dois posts neste blog inspirados pelas suas crónicas.  Estão aqui e aqui.
Embora não o conhecesse pessoalmente, tocou-me muito particularmente esta perda.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O Labirinto


Havia naquela aldeia um espaço misterioso, rodeado de altas sebes e muros inexpugnáveis, que se dizia possuir uma vibração sobrenatural. Quem lá entrou, viu o espaço, experimentou a vibração e percebeu esta singularidade, jamais conseguiu descrever com exactidão o que sentiu.
Periodicamente algumas pessoas eram atraídas de forma espontânea e imprevista para a sua entrada, sem que se saiba explicar qual a causa desse fenómeno. Por ali ficavam depois, expectantes. A porta que dava acesso ao seu interior abria-se de forma totalmente imprevista quando aparecia uma outra pessoa. Alguém também atraído, por uma qualquer razão inexplicável, para esse local que emparelhava com quem já lá estava à espera.
Quando um par se formava, ouvia-se um som cuja origem ninguém conseguia identificar e a porta abria-se então através de um mecanismo, que se adivinhava complicadíssimo pelos sons que produzia, cujo modo de funcionamento também nunca foi possível descrever com rigor.
O que se sabe é que quando se formava um par, a porta abria-se e esse par precipitava-se de forma incontrolada para o interior daquele espaço, atraído por uma qualquer e incompreensível força. Os pares formavam-se sobretudo com gente local, mas era frequente aparecerem forasteiros que emparelhavam com algum habitante da aldeia ou eram também para ali atraídos e ali emparelhavam com algum dos outros forasteiros que para lá tinham igualmente sido também atraídos.
Depois de entrarem no estranho espaço, a porta fechava-se. Era impossível abri-la de fora (antes tinha de se formar uma dessas parelhas), mas era possível abri-la por dentro e voltar a sair.
Aos pares que entravam, deslumbrados com aquele intrigante fenómeno, deparava-se um longo corredor, ao fundo qual havia uma saída. Depois de a passarem, novos corredores, com novas saídas, cada vez mais saídas e mais corredores que levavam os pares a ter de planear com cuidados redobrados os seus próximos passos. Por vezes desentendiam-se, optavam por ir cada um para uma saída diferente, outras vezes voltavam para trás, calcorreavam de novo um corredor anteriormente ultrapassado e escolhiam juntos uma saída diferente. Também acontecia seguirem por corredores diferentes para se reencontrarem mais adiante. Nesse caso, se resolviam voltar a avançar juntos, progrediam, recuavam, alguns acabavam por se separar novamente. Acontecia a alguns desistirem e voltarem para trás. Outros daqueles que ensaiavam esse recuo acabavam perdidos.
Pelo caminho encontravam outros pares, por vezes um ou outro desses perdidos. Os mais prevenidos ou calculistas tinham optado pelo velho truque das migalhas de pão e reencontravam o caminho de volta à entrada, que abria, recordo, por dentro. Os mais incautos perdiam-se definitivamente.
Por vezes um alçapão traiçoeiro abria-se subitamente e engolia um deles.
A maioria, porém, acabava por encontrar a porta de saída. Esta abria-se, de forma igualmente misteriosa, quando o par que tinha completado esta jornada chegava junto a ela. Nessa altura esse par podia sair livremente daquele espaço para o qual tinha sido atraído.
Depois de concluirem este surpreendente percurso, já livres dos constrangimentos do espaço, muitos acabavam a viver na aldeia, outros iam por aí fora, de volta ao local de onde tinham partido ou para um novo destino, junto ao sol.
Os registos da aldeia, cuidadosamente preservados pelos seus habitantes, intrigados com aquele inusitado fenómeno, contêm listas pormenorizadas dos numerosos pares que, depois de encontrarem a saída juntos, por lá ficaram ou passaram as suas fronteiras rumo a outros destinos. Dão também conta dos que se perderam por aqueles corredores que pareciam não ter fim, e dos que percorreram o caminho de volta à porta de entrada.
Alguns destes últimos para ali ficariam, na esperança imorredoira de que pudesse aparecer algum par que permitisse accionar de novo o misterioso mecanismo de controlo da abertura da porta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Um exercício de inteligência e de cidadania



Desculpem-me vir aqui, de certa forma, falar em causa própria, mas é inevitável. 
Refiro-me à exposição Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] ∙ Paisagem e povoamento, inaugurada no dia 17 de outubro, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães e aberta, para a sua visita, até ao dia 31 de janeiro.
Há mais, mas, no meu entender, são três os argumentos principais para não perder esta mostra. 
Em primeiro lugar, trata-se de celebrar o triunfo da fotografia como elemento mediador entre o espaço real e o imaginário. Apesar de esta exposição incluir muitos outros elementos (algumas verdadeiras preciosidades, raramente ou nunca vistas antes) que ajudam esta mediação — mapas, relatórios, fichas, atlas, filmes, sons — é na fotografia, neste seu papel de mediador, nas potencialidades e nos limites que carrega para o exercício dessa função, na sua aura e no seu sortilégio, que se situa o coração deste projecto ímpar. 
Contribuir para esta grande celebração, participar nela, poderia ser argumento suficiente para visitar Guimarães. 
Mas há mais, como disse. 
Em segundo lugar, esta mostra distingue-se pela amplitude da sua cobertura. É única na diversidade dos autores incluídos, nas suas filosofias e estratégias de acção e respectivas áreas de intervenção. Nunca terá sido reunido um conjunto tão grande de peças e autores, dentro deste tema, obedecendo a um critério tão amplo de selecção. O valor desta mostra é — por este simples motivo — praticamente incalculável.
Em terceiro lugar, o que esta exposição nos propõe, no seu conceito, é um exercício de inteligência e de cidadania, que poucas vezes nos é proporcionado em situações deste tipo. Um exercício que demonstra, em si, uma rara sensibilidade e um grande respeito pelos seus destinatários, que não é possível deixar de assinalar. 
O que o visitante tem garantido, ao percorrer a exposição, é a oportunidade de ir apanhando as pontas de um delicado novelo, que vai podendo fiar ao seu ritmo, naquilo que se pode designar por um verdadeiro processo interactivo. Não uma falsa interactividade, desenhada a computador, mas a verdadeira (que o computador também pode proporcionar...), feita de um subtil processo da mente, profunda, estimulante, culturalmente enriquecedora. 
O que fica disponível, no final, é a possibilidade de o visitante fazer o que quiser, quando quiser, com o produto desta fiação. 
Não é um feito despiciendo este que a exposição Os Inquéritos [à Fotografia e ao Território] ∙ Paisagem e povoamento alcança. Não a visitar é um pecado imperdoável...



Centro Internacional das Artes José de Guimarães
Plataforma das Artes e da Criatividade
17 de Outubro 31 de Janeiro

Sinopse: A fotografia tem um duplo eixo operativo que se desloca entre o documento e o discurso. O território tem sido um lugar de indagação e de reflexão, de constituição individual e coletiva. Transversal a várias disciplinas, à fotografia tem cabido um papel central nessa tarefa de mapeamento. Tendo como ponto de partida a expedição à Serra da Estrela, realizada sob a égide da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1881, que contou com a colaboração de Martins Sarmento, a exposição reúne um conjunto de inquéritos ao território em que a fotografia (e em alguns casos o filme) assume particular relevância. Pondo lado-a-lado um amplo conjunto de imagens, documentos e publicações, alguns deles não antes vistos em contexto museológico, oferece-nos uma miríade de retratos do território português, tão diversos quanto fascinantes, que nos induzem a uma reflexão sobre nós mesmos e o lugar em que nos foi dado viver. 

Elenco: Expedição Científica à Serra da Estrela (1881), Carlos Relvas, Orlando Ribeiro, Inquérito à Arquitetura Regional (1955-1957), levantamentos realizados no âmbito do trabalho do Centro de Estudos de Etnologia (Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamin Pereira), Alberto Carneiro, Luís Pavão, Duarte Belo, Álvaro Domingues, Nuno Cera e Diogo Lopes, Paulo Catrica, Valter Vinagre, André Príncipe, Daniel Blaufuks, Mariana Caló e Francisco Queimadela, Álvaro Teixeira, Jorge Graça, Carlos Lobo, Eduardo Brito, Duas Linhas.
Projecto sonoro: Carlos Alberto Augusto

Curadoria: Nuno Faria

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Dizer por música



Victor Hugo disse da música que ela expressa algo que não pode ser dito, mas sobre o qual não se pode ficar calado. Esta economia da música estende-se, creio, a muitas outras manifestações do espírito humano. Por outras palavras, há música em muitos dos nossos actos e actividades. Há música nas outras artes, há música na ciência, há mesmo música no dito, ou seja, podemos expressar algo que não pode ser dito naquilo que é efectivamente dito. Não há aqui jogos de palavras. Podemos escrever ou pintar com música. Talvez esteja aí a origem daquela expressão "isso é música para os meus ouvidos!" Há, com efeito, situações, factos, pessoas que são música, neste sentido que Victor Hugo lhe quis dar.
Há, desta forma também, é fácil percebe-lo, música nas palavras de Antonio Tabucchi.
A Antonella Barletta juntou-se finalmente a nós, completando assim a equipa que produz "Mulher de Porto Pim", a leitura encenada que viemos realizar à Ilha Graciosa baseada em obras do escritor italiano. 
O piano da Antonella ressoou ontem, pela primeira vez, no Clube Naval da Ilha Graciosa. É este piano que diz aquilo que não pode ser dito sobre estes textos. É este piano que expressa aquilo que o próprio Tabucchi, na perfeição da sua palavra e no rigor da sua forma, não disse, mas que nesta transposição que fizemos para o palco destas suas obras, também não pode ser calado. 
O resultado, no caso desta "Mulher de Porto Pim", é admirável, embora não tenha sido simples obtê-lo nem ele tenha sido, ao contrário do que porventura possa parecer, fruto de mera inspiração. 
Não deixa de ser verdade que o facto da Antonella Barletta ser, ela própria, música, ajudou...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Sortilégios da Graciosa




Em "Caça à baleia" – um dos contos de Tabucchi que compõem esta leitura encenada a que demos o título genérico de "Mulher de Porto Pim" – o vigia grita, a dada altura, "baleia à vista!"
Este grito fazia parte da complexa "semiologia dos baleeiros". Ouvia-se no navio quando era chegado o momento de iniciar as operações da caçada.
Em terra, a proximidade da baleia traduzia-se por um sinal sonoro diferente. O grito precisava de chegar mais longe. Um som cumpria essa função. O som de um foguete, especialmente criado para este efeito, estralejava indicando a proximidade da baleia e simultaneamente a sua localização. Mais tarde uma "buzina", uma espécie de sirene accionada manualmente, dava o alerta. A localização e estado da baleia eram, neste caso, indicados por um sistema complementar de bandeiras.
Depois surgiu a "fonia". A nova tecnologia aumentou o raio de alcance da "semiologia dos baleeiros", transformando-a, dando-lhe a precisão e a sofisticação que o uso da linguagem proporciona. A informação necessária podia agora ser projectada a uma maior distância, sem condicionamentos de direcção, independente das condições de visibilidade e sem as ambiguidades semânticas de foguetes e buzinas.
Sofisticada e precisa é a linguagem de Tabucchi. Transforma-nos. Fizemo-la viajar até aqui aos Açores . À beira das águas que alimentaram a sua gestação, tentamos, nós também, na forma desta leitura encenada, ir mais longe, sem constrangimentos de direcção ou de visibilidade, dando voz a uma linguagem que ao som destas águas se torna particularmente cristalina.
Sortilégios da Graciosa .